quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Anticorpo – de Bruna Kalil Othero



Por Adriane Garcia

Anticorpo: proteína específica produzida como defesa contra aquele que a despertou, parte do sistema imunológico. Em si o prefixo do “contra”. Sem o anticorpo, o corpo está indefeso. Anti o corpo específico, defesa deliberada e calculista. O título escolhido por Bruna Kalil Othero para o seu livro convida-nos a repensar o sentido da palavra e do corpo. Mais especificamente, convida-nos a pensar o corpo feminino, sem deixar de lado (e como poderia?) todo o ataque que esse corpo sofreu e sofre no decorrer de milênios.

Com 122 páginas, Anticorpo é dividido em duas seções: Da cintura pra cima e Da cintura pra baixo. Na primeira parte, os poemas trabalham a temática do corpo, da mulher e do amor, mas sem a ênfase direta na relação sexual. Na segunda parte, a relação sexual aparece mais explicitamente, como objeto do poema. Tanto na primeira quanto na segunda parte, o tom é libertário, utilizando-se da reflexão, por vezes do humor, para situar uma mulher que, de posse do próprio corpo, toma a posse da palavra. Nos poemas de Anticorpo, que inclui alguns poemas metalinguísticos, corpo e palavra estão intimamente ligados. É pela palavra que o corpo se inscreve e escreve e é no corpo que a história pessoal é inscrita e escrita, numa espécie de corpoema. Não por acaso, Anticorpo começa com Em tuas mãos, onde o livro é a prova em tinta (sangue) da continuidade do corpo dos pais no corpo (livro) da poeta. E logo mais, em Mátria, o corpo se apresenta como lugar de registro da ancestralidade. O corpo da filha repete o corpo da mãe e, de certa maneira, guarda-o.

Coletânea que funciona muito bem, Bruna Kalil Othero conseguiu trazer ao leitor um projeto coeso onde um poema fortalece o outro, oferecendo possibilidades de leitura do mundo e das relações pelo viés do corpo feminino. A poeta utiliza a persona poética para denunciar sobre este corpo que não tem seu direito de ir e vir garantido, pois não pode se locomover nas ruas com segurança (sim, estamos falando de assédio e estupro); para refletir sobre as relações amorosas quando tantas vezes o outro acaba sendo o antígeno; para dessacralizar imagens criadas a fim de manter mulheres sequestradas de seus próprios corpos. Não à toa, são recorrentes nos poemas de Bruna a masturbação e ejaculação femininas e o poder do prazer autodirigido. A mulher de Anticorpo é uma mulher forte e senhora de si. Em Soneto do final feliz, Bruna, de modo sagaz, constrói um poema onde a vingança é finalmente falar, descrever de modo apenas permitido e naturalizado a um homem. No próprio título, o deboche remete aos contos de fadas, onde mulheres são sempre princesas frágeis esperando príncipes encantados. Bruna ainda faz isso no único poema do livro que se utiliza de uma forma clássica, porque o poema todo quer profanação. A mulher desse soneto não espera mais o homem, dona do próprio gozo, comprou um vibrador e, liberta, foi ser feliz. Noutro poema, Striptease, Bruna trabalha com a desautomatização do nu, brinca com a expectativa do leitor: faz esperar uma coisa e dá outra.

Sempre aprecio a poesia que tem algo a dizer. Entre tantos temas trazidos à luz da carne, Bruna, sem pudor, e amante da forma, anuncia o que a experiência de ser acrescenta à arte. Por tanto tempo, bordões ligavam as mulheres àquilo que, misterioso, não se podia entender. Óbvio, não é possível entender aquele que não pode dizer de si; não há qualquer predisposição para se entender quando não se quer ouvir. Anticorpo grita que a mulher não aguarda permissão, diz de si e diz do outro, do seu lugar. E o primeiro lugar é o corpo.



Na contramão da gravata

célebre imortal maravilhoso branco

me bate
uma vontade de ser
sujeito lírico neutro
infectado por aquela visão tão objetiva
& masculina

porque se eu
fosse
raimundo

mas antes
sequer
de terminar o raciocínio
meu útero
bate na porta:
esse mês
não


Cara-metade

diz a ciência
que para cada antígeno
há um anticorpo
específico-
complementar
que o destrói

nos completamos
você me disse
antes

mas fica a dúvida

quem
foi
qual


Anticorpo

cura
mas já feriu

fere
mas se reflete

reflete
mas não existe

não existe
mas ilude

ilude
mas encanta

encanta
mas perfura

perfura
mas desaparece

desaparece
mas já curou

***
Anticorpo
Bruna Kalil Othero
Poesia
Ed. Letramento
2017







Cavala – de Sérgio Tavares





Por Adriane Garcia


Termino de ler o livro de contos Cavala (ed. Record, 2010), de Sérgio Tavares. Livro que li sem pausa e que, imediatamente reli. É que não dá para ficar com o pesar de, talvez, ter perdido algo no torvelinho em que ele nos mete.

O livro, de 96 páginas, é composto por quatro contos, dos quais o primeiro, “Cavala”, ocupa 58 delas. “Cavala” conta a história de uma modelo internacional que, após ter vivido uma carreira de sucesso, sucumbe à anorexia e bulimia e, depois de várias internações psiquiátricas, vive sob os cuidados dos pais. Na sequência de um acidente nas passarelas, da doença e do tratamento terapêutico, a protagonista adquire um transtorno obsessivo compulsivo em altíssimo grau, em que por meio dos números, somas, divisões, subtrações, multiplicações e medidas, procura alcançar o equilíbrio de não permitir que seu cérebro dê espaço para pensamentos e lembranças ruins. Assim, ela sabe, por meio de associações, que se avistar um carro vermelho, terá que avistar, em seguida, um carro amarelo para a conta zerar e alcançar o equilíbrio. Só isso faria um dia ruim (o carro vermelho) se transformar num dia bom (o carro amarelo), ou no caso de ver dois carros vermelhos, teria que ver, em seguida, dois carros amarelos; se a conta não zerar com as cores dos carros, será preciso zerar com as placas dos carros, de modo que alguma conta matemática resulte em zero com os números das placas. Se a personagem não consegue esse zero, ela se desespera e se desequilibra. Totalmente. O leitor dentro da cabeça dela.

Acompanhar a protagonista de “Cavala” é uma experiência literária interessantíssima com final surpreendente. Sérgio Tavares nos leva em companhia da loucura, tão perto que podemos tocá-la com a mão. Justamente na busca obsessiva por equilíbrio, valor de salvação que dá a ele quem o perdeu, é que se o perde novamente. O círculo vicioso, espiral infinita, dolorida e sôfrega de uma viagem muitas vezes sem volta, onde um ser humano tenta segundas chances que nunca se viabilizam. “Cavala” é asfixiante e claustrofóbico, uma oportunidade para leitores corajosos, que gostam de visitar prisões onde não se enxergam as chaves.

O segundo conto é “Fome”. Nesse conto, a compulsão da protagonista é por sexo. Aqui, também, o descontrole, a consciência do desequilíbrio e uma espécie de desistência de vencer a compulsão. Diferentemente de “Cavala”, cuja protagonista crê que obterá sucesso no autocontrole, em “Fome” a protagonista admite sua falta de forças. No limite, traz um mendigo do lixão (personagem que também aparece no primeiro conto) para dentro de seu quarto, para a sua cama. Todos os personagens deste livro estão expostos a perigos, violências e ambientes marcados por sujeira e excrementos.

Em “Sobre a pélvis”, o narrador é um homem, homossexual, voyeur, faxineiro de um banheiro público onde realiza o desejo de ver homens urinando e imagina outras fantasias. É também com os clientes no banheiro público que consegue algumas relações sexuais. Diferentemente das protagonistas de “Cavala” e de “Fome”, o protagonista de “Sobre a pélvis” narra sem se preocupar com a questão do controle, mas assim como as outras sabe que está numa situação da qual não consegue sair: “sinto-me sórdido como um escravo tigre. prisioneiro deste cárcere de louça encardida, arquitetado para o despejo de necessidades fisiológicas, esguicho, agacho, escovo e lavo, cumprindo a pena que eu mesmo me sentenciei.

O último conto do livro é “Papel de cão”. Conto instigante, no qual o leitor não encontra fuga. É preciso aceitar o que o adolescente morador de rua relata. Só há mesmo o seu relato. É o relato de uma vítima, de um algoz e de um louco. Em “Papel de Cão”, Sérgio Tavares nos dá a fala de um adolescente abusado sexualmente por um pedófilo. O protagonista de “Papel de cão” é retirado das ruas, de vez em quando, para atender ao doutor Ivone. Desde o começo do conto sabemos que o menino possui um cão e que este cão (imagem de uma revista que ele recorta e mantém no bolso) é imaginário e, ao mesmo tempo, um alter ego onde se retrata violência e animalidade. Diferentemente dos outros três protagonistas, em “Papel de cão”, o narrador não apresenta nenhuma fresta de consciência sobre o processo que vive, sendo a realidade em que acredita a única realidade que conhece. Talvez por isso ele seja extremamente perigoso, porque não há um embate entre suas duas personas, porque sua esquizofrenia considera acordos pacíficos entre ele e o seu cão.

Cavala é um livro de contos primoroso em seu conjunto. Sérgio Tavares acerta com exatidão o nome do conto homônimo e o nome da coletânea. Assim como Cavala é tanto palavra aviltante quanto grandiosa, também pode nos remeter a cavalo, o nome utilizado em algumas religiões e seitas de base espírita para designar aquele que recebe o espírito, a força que vem de fora, alienígena ao mundo trivial, normal. Os personagens de Sérgio Tavares estão todos possuídos por uma força que não controlam e que lhes aparece como algo que não define a sua totalidade. Quem vem por essas páginas acompanhando-os de dentro de suas cabeças sabe que eles, os que contam, são algo mais que apenas estes que agem.

“certa vez, acordei e não conseguia encontrar o caderno. revirava tudo e os lençóis e não conseguia encontrá-lo. os movimentos bruscos começaram a me esgotar e, sem as páginas para me dizer o que pensar, fui ficando tonta: mareando meus olhos em imagens afogadas que me dobravam e vomitei.
lembro que era só gosma, uma espuma amarelada e amarga sendo chupada pelo carpete já que eu não comia havia... algumas horas?, mas que me trouxera um alívio tremendo, uma clareza mental inigualável que, segundos depois me permitiu encontrar o caderno logo ali. depois disso, comecei a vomitar muito. vomitava para obter descanso, me sentir tranquila, evitar que qualquer mal me atingisse e que essa borra de pensamentos imperfeitos e anseios se avolumasse e ganhasse corpo – o meu corpo.” (Cavala, p. 26 – 27)

***
Cavala
Sérgio Tavares
Contos
Ed. Record

2010

domingo, 14 de janeiro de 2018

Um defeito de cor – De Ana Maria Gonçalves



Um defeito de cor (Record, 2006), de Ana Maria Gonçalves, deveria ser leitura incluída no currículo escolar de todos os brasileiros. Não tendo sido, Um defeito de cor deveria fazer parte do compromisso de formação continuada de cada brasileiro. Trata-se de literatura e, sobretudo, trata-se daquela literatura que consegue trazer para tão perto um lugar, um personagem, uma história, que passamos a andar nesse lugar, com esse personagem e sofremos e nos alegramos como se essa história fosse a nossa (e em tantos momentos ela pode mesmo, de alguma forma, ser a história de quem está lendo).

A narrativa é feita em primeira pessoa e conta a saga de Kehinde (Luiza Mahin, mãe do poeta abolicionista Luiz Gama), africana trazida para o Brasil, no início do século XIX, em um “tumbeiro”, rumo à Bahia. Escravizada aos oito anos, segue para uma fazenda de engenho de cana, onde também se praticava a pesca da baleia e o preparo de seus derivados. O leitor, que já acompanhava a infância de Kehinde em Savalu, e depois em Uidá (Reino de Daomé), passa a conhecer também sua adolescência, juventude e vida adulta. A narrativa prossegue até sua velhice. Com isso, ergue-se um grande e completo retrato da vida de uma escravizada neste país, parte dos mais de cinco milhões de pessoas africanas, sequestradas em sua terra de origem e trazidas para o Brasil durante quatro séculos, onde estiveram sujeitas a todo tipo de violência, atos tipificados como crime, se cometidos contra uma pessoa branca.

Dos ritos dedicados aos voduns e orixás à capacidade de transformação no sincretismo religioso, do detalhamento de modos tribais africanos às diferenças culturais assimiladas dos árabes nos muçurumins, do trabalho, opressão e exploração do escravizado brasileiro aos seus modos de se libertar, Ana Maria Gonçalves cria uma obra monumental (não só pelas suas 952 páginas), espécie de epopeia, onde não se preocupa em dar à sua protagonista falas e pensamentos politicamente corretos. Kehinde é personagem de carne e osso, lutando pela sobrevivência, pela liberdade, pelo amor, pelo enriquecimento, pela identidade e faz isso de modo particular e único, talvez socorrida, em alguns momentos, pela sorte que acompanha os ibêjis (gêmeos, em iorubá), mas certamente guiada por seus fortes atributos: força, inteligência, sagacidade, generosidade e uma vontade enorme de aprender.

O livro de Ana Maria Gonçalves ainda traz riquezas como detalhes sobre os nomes em iorubá, que utiliza por quase toda a narrativa, sobre religião e política em terras africanas, além de um panorama histórico sobre a Bahia e o Rio de Janeiro.  Um defeito de cor é uma obra que faz refletir sobre as relações injustas e desiguais entre pessoas negras e pessoas brancas, de modo complexo, considerando o processo social, histórico e também afetivo. Tudo isso como pano de fundo para uma história emocionante, de uma mulher que busca a própria liberdade e o próprio destino, em uma vida cheia de encontros e desencontros. Acompanhar Kehinde saindo da África é viagem sem trégua. Acompanhá-la voltando à África põe-nos novamente no oceano. Já anciã, Kehinde precisará retornar ao Brasil para lidar com sua perda mais dolorosa. Nós, leitores desta obra ímpar, a esta altura, já iríamos com ela para qualquer lugar.

Na orelha do livro, Millôr Fernandes nos desafia: “Em suas 952 páginas, Um defeito de cor não tem hausto, parada pra respirar. Desmintam-me, por favor.”

Impossível desmentir Millôr, Ana Maria Gonçalves construiu uma das melhores obras da literatura brasileira.

“Kehinde

Eu nasci em Savalu, reino de Daomé, África, no ano de um mil oitocentos e dez. Portanto, tinha seis anos, quase sete, quando esta história começou. O que aconteceu antes disso não tem importância, pois a vida corria paralela ao destino. O meu nome é Kehinde porque sou ibêji ¹ e nasci por último. Minha irmã nasceu primeiro e por isso se chamava Taiwo. Antes tinha nascido o meu irmão Kokumo, e o nome dele significava “não morrerás mais, os deuses te segurarão”. O Kokumo era um abiku², como a minha mãe. O nome dela, Dúrójaiyé, era o mesmo que “fica, tu serás mimada”. A minha avó Dúrójaiyé tinha esse nome porque também era uma abiku, e o nome dela pedia “fica para gozar a vida, nós imploramos”. Assim são os abikus, espíritos amigos há mais tempo do que qualquer um de nós pode contar, e que, antes de nascer, combinam entre si que logo voltarão a morrer para se encontrarem novamente no mundo dos espíritos. Alguns abikus tentam nascer na mesma família para permanecerem juntos, embora não se lembrem disto quando estão aqui no ayê, na terra, a não ser quando sabem que são abikus. Eles têm nomes especiais que tentam segurá-los vivos por mais tempo, o que às vezes funciona. Mas ninguém foge ao destino, a não ser que Ele queira, porque quando Ele quer, até água fria é remédio.
A minha avó nasceu em Abomé, a capital do reino de Daomé, ou Dan-home, onde o rei governava da casa assentada sobre as entranhas de Dan. Ela dizia que esta é uma história muito antiga, do tempo em que os homens ainda respeitavam as árvores, quando o rei Abaka foi pedir ao vizinho Dan um pedaço de terra para aumentar o seu reino. Daquela vez, Dan já deu a terra de má vontade, e quando Abaka pediu outro pedaço para construir um castelo, Dan ficou bravo e respondeu que Abaka podia construir o castelo sobre a sua barriga, pois não daria mais terra alguma. Com raiva da resposta mal-educada, o rei Abaka matou Dan e, sobre as entranhas espalhadas no chão, ergueu um palácio suntuoso, a partir do qual teve início o grande império do povo ioruba. Dan também é o nome da serpente sagrada, mas esta história fica para mais tarde ou para outra pessoa contar quando chegar a hora dela, porque agora preciso falar de um tempo  que começou muito depois, quando a perseguição do rei monstro Adandozan obrigou minha avó a sair de Abomé e se mudar para Savalu.” (p. 19-20)


¹ Ibêji: assim são chamados os gêmeos entre os povos iorubas.
² Abiku: “criança nascida para morrer”.

***
Um defeito de cor
Ana Maria Gonçalves
Romance
Ed. Record
2006








domingo, 17 de dezembro de 2017

Via Férrea, de Mario Alex Rosa – Uma viagem pela luz no fim do túnel



 Por Adriane Garcia


Bela edição da Cosac Naify, o que é quase uma redundância, o livro Via Férrea, de Mario Alex Rosa é um objeto prazeroso de se ter em mãos: azul, formato estreito, 64 páginas que já sugerem não haver excesso.  Por fora, o título emblemático, curioso, substantivo concreto que antecipa a possibilidade de movimento, duro, composto, de ferro e metáfora. Via. Férrea.

Entrar nesse caminho, abrir esse livro, exige silêncio. Não é a poesia fácil que se pode ler no barulho infernal de nossos dias postáveis, pois pouquíssimo ou nada nos exigirá memória na terra da dispersão. É outra coisa, é como no verso de Drummond: “Penetra surdamente no reino das palavras”. É sempre necessário um silêncio para ouvir o outro silêncio.

Munida (e necessitada) de silêncio, abri. Nada sabia eu da viagem, essa a grande aventura a que os livros podem nos levar. Ocupei um dos vagões do monstro metálico, um vagão melancólico, onde primeiro me deparei com essa entidade assustadora e premente: o Tempo.

Em Via Férrea há uma constante inquietação e constatação a respeito do tempo e seu efeito sobre nós, o homem sabe-se um bicho que está no mundo, “bicho ferrado”, mas diferentemente dos outros bichos, consciente de sua condição, sente a ação do tempo. Bicho versus palavra, nomear é sua angústia e salvação. Há agonia se a palavra cala, pois a palavra surge como algo de bom nos dias, como uma interrupção na sua labuta de sísifo; porém, perpassa pelos poemas de Via Férrea a ideia de que a expressão jamais comunica exatamente aquilo que veio expressar. Existe um sentimento de impotência e incomunicabilidade diante do mundo.

“A tarde terminou com sinal de promessas.
Vieram as palavras!
E, com elas, a raiva varou noite adentro.”

Também é interessante notar a opressão dos calendários como repetição. Desde o calendário grafado, dos dias úteis, que aprisionam a vida, que colaboram para o sentimento da falta de sentido de viver, um dia após o outro, como o calendário mais natural, o calendário regido pelo aparecimento e pela ausência da luz do sol, pelos movimentos da Terra: manhã, tarde, noite e pelas estações do ano. O ser está preso aos seus afazeres, obrigações. Entre nascer e morrer (as duas extremidades de uma via), viver é um exercício penoso, desconfortável, “o salto é zero”:

Na próxima manhã
Sol escaldante barra a visão.
Não dessa mão que escreve
(rodopia pelas ruas da cidade)
e nada sobrevoa.
Fixar é aqui mesmo.
Contra tudo:
o salto é zero.
Posso não regressar.
Mas, a tarde neutra, desemboca
na manhã seguinte.”

Da aflição para que os dias úteis terminem, o humano prazer de que o sábado não termine nunca, mas ele “vai anoitecendo”, e o domingo é o prenúncio da segunda-feira. Uma das imagens mais bonitas de Via Férrea, por sinal, está no poema Domingo, onde, de forma tão sutil e indireta, o poeta nos faz ver um domingo (um menino?) soltando pipa (a luz que faltava?). A maneira pela qual ele faz isso é um grande acerto no poema: dizer sem dizer, mostrar, mostrando outra coisa, permitir que a imaginação torne o leitor coautor do poema:

“O domingo veio quente.
Sol a pino.
Ele empinava a luz que faltava.
Então, já sabe escolher entre o sim e o não?
Não.
Então volte e mastigue suas próprias palavras.”

Não estaríamos viajando, verdadeiramente, numa via férrea, acaso não prestássemos atenção na geografia. A paisagem é mesmíssima e é o amor que pode interrompê-la com alguma novidade. Assim, o amor aconteceu durante o percurso, mas a via só leva para a frente, exceto pela memória, “poeira”, que “noitea” os dias. O amor é a força capaz de fazer o coração bater, mas “ele só bate”. O amor é o grande sonho irrealizado, nem ele ou o sexo aparecem como redenção nesta poesia de Mario Alex Rosa, pois não é possível seguir na companhia do amor, exceto como perturbação: a vida é solitária e de dor continuada. Como no ritmo de um trem, o ritmo desta dor continuada é melodicamente constante e, por isso, suportável, mas apenas depois de já se ter alcançado a maturidade de saber ouvi-lo:

“Nunca o relógio andou tão rápido:
Disseram: Tempo de mudanças traz vida nova!
As folhas de outono amanhecerão
num jardim primaveril. As chaves abrirão
outras portas. Para sempre pensará no suicida que foi.
Em todo caso, sem desastre fez o dever de casa: mudou.
Mas aqui, onde ninguém chega,
uma dor muda
dói.”

E a via segue. O ser, comprimido pelo próprio caminho, sente raiva, violência e mantém-se acuado, minúsculo, no paradoxo de conter em si um furacão de sentimentos. Durante esse trajeto, há pouca possibilidade de fuga, e nem mesmo o poema se estabelece como uma:

 “Aqui no branco
ou na avenida estreita,
a margem é a mesma.
A sombra também.”

A dor interna muitas vezes coincide com uma dor externa, visível na paisagem. Ora, eu não disse que a paisagem era mesmíssima? Isso não quer dizer que ela seja calma e pacífica. O personagem que percorre Via Férrea (porque poesia também é ficção) é traído pela memória,  sente a mordida, mas é dentro de si: a ferrugem, essa oxidação que é tão simbólica da corruptibilidade da matéria, dos nossos corpos, dos trilhos. Novamente a ação do tempo, das intempéries.

Via de esperança mínima, o eu-poético em Via Férrea sofreu o suficiente para não ser mais ingênuo, sabe que os dias não permitem grandes ousadias, que são feitos de medo, inclusive do medo de amar. Não há concessão: o outro, que seria a ponte de alguma salvação ou sentido, não se realiza. Essa é a via do ser extremamente sozinho, que não deseja mais interrupções de ritmo com sobressaltos. E tanto a esperança quanto o amor deixariam o coração acelerado.

Terminada minha primeira leitura, fechei o livro e recomecei a viagem. Lembrei-me do poeta W. H. Auden e voltei a uma sua palestra em que dizia que a poesia funcionava quando, entre outros elementos do saber fazer, antes, o poeta encontrava o elemento sagrado. Para Auden, “não se pode escolher um ser sacro, é preciso encontrá-lo. No encontro, a imaginação não tem outra escolha a não ser reagir.”

Via Férrea traz vários de nossos “sagrados” e reage a eles, estes a que temos adoração ou repulsa: tempo, vida, morte, incompletude, amor, raiva, natureza, mistério, sentido. O poeta consegue em Via Férrea fazer um livro em que o confessional é matéria prima e, se vestiu em si mesmo, com o poema, uma camisa de força para continuar o caminho, vestiu em cada poema esta contenção que torna as palavras arte. O resultado é que emociona o leitor preparado para sentar no banco ao seu lado e seguir. Em silêncio.  A viagem emociona porque se nos identifica. Sabemos muito bem onde a via começa e onde vai terminar.

“Trilha

Se pudesse, mataria a palavra que guardo aqui.
Mas tenho muitos elementos covardes e adio
o que um dia, inevitavelmente, terá que deixar de ser.
A via férrea cortará os trilhos, os braços e, talvez,
abra um clarão no escuro.”



***
Via Férrea
Mario Alex Rosa
Poesia
Cosac e Naify

2013

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Vertigem digital, de Andrew Keen




Por Adriane Garcia

“A transparência é boa demais para ser verdade. O que há por trás desse mundo falsamente transparente?”
Jean Baudrillard (cit. p. 130)
  


O livro Vertigem digital, de Andrew Keen (tradução de Alexandre Martins, ed. Zahar) é um excelente livro para se refletir sobre as redes sociais.

No subtítulo “por que as redes sociais estão nos dividindo, diminuindo e desorientando” o autor já dá o tom de crítica com o qual prosseguirá por toda a obra.

Partindo do corpo embalsamado do filósofo Jeremy Bentham, em exposição no University College de Londres, Andrew Keen, de forma rica e habilidosa, convida-nos a pensar, principalmente, a questão da privacidade em tempos de redes sociais.  Utilizando analogias com o cinema (Um corpo que cai, de Hitchcock), com a literatura (1984, de Orwell e Utopia, de More) e com a filosofia (entre outros, Sobre a liberdade, de Stuart Mill), além de informações interessantes sobre o Vale do Silício, Vertigem Digital consegue prender a atenção do leitor com um texto fluido e curioso.

O autor é jornalista norte-americano e historiador formado na Inglaterra, especializado nas criações do Vale do Silício. Ciente de que as redes sociais vieram para ficar e que, neste sentido, não há nada a se fazer, aponta a necessidade de se pensar e repensar o seu uso. Segundo Andrew, as redes sociais podem ser comparadas ao antigo projeto arquitetônico do panóptico, de Jeremy Bentham, utilizado, sobretudo, para prédios prisionais, onde se buscava a maior vigilância com o menor esforço. Empresas bilionárias de internet vendem, a todo momento, os dados que disponibilizamos nas redes, “se você não paga pelo produto, você é o produto”. É a chamada “economia da atenção” ou “cultura participativa”, em que o que está em disputa é o seu tempo e o quanto você se dispõe a revelar. Um mundo de posts, likes e compartilhamentos que não só compete no mundo virtual como compete com o mundo real.

Andrew Keen escreve um livro bem abrangente, que observa o fenômeno das redes sociais tanto no efeito que promovem sobre a vida privada quanto na vida pública ou política, quando dados e informações dos usuários são utilizados para a manipulação, para o bem e para o mal.

Livro para ser lido, relido e indicado para leituras.

“A revolução digital muda tudo, diz Shirky, porque a “cultura participativa” elimina as antigas hierarquias da mídia industrial do século XX. Portanto, não precisamos mais de um estúdio de Hollywood com recursos, como o Paramount, ou de um diretor de cinema autoritário como Alfred Hitchcock, para fazer Um corpo que cai. O monopólio da mídia por Hollywood, no século XX, é substituído pelo que Shirky chama de “produção social” da internet, na qual a cultura é criada por todos nós, e não pelas elites. Assim, a mídia digital se torna literalmente o “tecido conjuntivo da sociedade”, a fonte participativa de cultura e comunidade. Mais uma vez citando John Perry Barlow, todos nos tornamos informação – cada um de nós é um conector participativo nessa produção coletiva de cultura.
Mas Shirky – não por acaso apelidado de Herbert Marcuse da atual intelligentsia da rede – está certo por todas as razões erradas. No século XX, íamos ao cinema para sermos aterrorizados pelos filmes de Hitchcock sobre homens inocentes como Scottie Ferguson, que eram arrastados para pesadelos que não compreendiam nem controlavam. Mas quando as luzes se acendiam, o pesadelo terminava, e estávamos livres para sair do cinema e retomar nossas vidas normais.
Hoje, porém, Um corpo que cai de Hitchcock foi radicalmente democratizado, de modo que todos participamos do drama. Essa é a verdade da “cultura participativa” de Shirky. Vejam, a mídia social se tornou tão onipresente, de tal forma é o tecido conjuntivo da sociedade, que todos nos tornamos Scottie Ferguson, vítimas de uma história assustadora que não compreendemos nem controlamos.
Sim, essa versão digital de Um corpo que cai é estranha pra cacete.
Assim como Gavin Elster idealizou a São Francisco de junho de 1949 e Scottie Ferguson se apaixonou pela falsa Madeleine Elster, Shirky e seus colegas comunitaristas se enamoraram de uma cultura participativa pré-industrial que provavelmente jamais existiu, e sem dúvida não pode ser ressuscitada em nosso mundo supercompetitivo e cada vez mais individualizado do século XXI. E tal como Elster atraiu seu próprio colega da Universidade de Stanford para uma soturna fantasia de logro e coração partido, esses comunitaristas românticos, por uma razão ou outra, arrastam todos nós para um futuro que a maioria na verdade não quer – um love-in digital de publicalidade-padrão; uma luta darwiniana de indivíduos hipervisivelmente relacionados; uma “aldeia global” onde segredo e esquecimento desaparecem; uma “cultura participativa” que projeta uma transparência indesejada sobre toda a nossa vida; um mundo Creepy SnoopOn.me de incessantes verificações no foursquare, de computadores que nos conhecem e varreduras faciais de Facebook, no qual ninguém nunca é deixado sozinho.
Embora Steven Johnson compare de modo favorável o “ecossistema” da internet a um dos recifes de coral cheios de vida de Charles Darwin; embora Nicholas Christakis e James Fowler nos prometam que, “quando você sorri, o mundo sorri com você”; embora Jeff Jarvis nos ofereça uma passagem de volta para a transparência “idílica” da Inglaterra de Henrique VIII; e embora Clay Shirky garanta que “os seres humanos valorizam intrinsecamente uma sensação de contato” – apesar disso tudo, o que a tecnologia em rede produziu de verdade foi a ressurreição do Autoícone de Jeremy Bentham – uma máquina de autoglorificação que promete, com toda a sedução de uma heroína coercitiva de Hitchcock, nos tornar imortais.” (p. 127 - 128)

***
Vertigem digital
Andrew Keen
Zahar
2012






segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Receitas de como se tornar um bom escritor – de Linaldo Guedes




Por Adriane Garcia

Tendo lido alguns romances ótimos durante a semana, resolvi descansar um pouco do gênero e peguei um livro que andava ocioso pela casa. A princípio, não dei atenção. O título me repelia um pouco, “Receitas de como se tornar um bom escritor” – lembrava algo da autoajuda, e ainda parecia partir do pressuposto de que alguém, algum iluminado, poderia ensinar isso. A própria edição (da Chiado Editora) não se mostrava muito atrativa, de maneira que abri o livro a esmo, sem gostar do título, sem gostar da capa, sem gostar do papel, mas de antemão sabendo que seu autor, Linaldo Guedes, era, pela qualidade de tantos trabalhos anteriores e militância na literatura, merecedor de atenção.

Grata surpresa: Receitas de como se tornar um bom escritor é uma coletânea reflexiva, que reúne artigos, palestras e crônicas publicadas na imprensa, seja impressa ou virtual, por Linaldo Guedes. Neles, Linaldo lança seu ponto de vista sobre a literatura, o meio literário, os livros, os autores e as mudanças ocorridas nos modos de publicação e recepção das obras literárias a partir do advento da internet e mesmo das redes sociais.

O próprio artigo cujo título dá nome ao livro nada tem a ver com aulas ou oficinas; é, na verdade, uma provocação do autor, que critica os modos extraliterários de se tornar um “bom escritor”, concluindo que um escritor cuja fama seja a de “bom escritor” não necessariamente o é, já que muitas vezes esse julgamento depende da circulação que faz entre aqueles que detêm o poder midiático ou alguma influência entre os que controlam o mercado editorial.

Na verdade, Receitas de como se tornar um bom escritor poderia se chamar Receitas de como se tornar um bom leitor. Linaldo fala sobre Fernando Pessoa, Padre Antônio Vieira, João Cabral de Melo Neto, Paulo Leminski, Augusto dos Anjos, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Ariano Suassuna, Sérgio de Castro Pinto, entre outros. Claro que eu senti falta, no livro, de artigo que falasse especificamente de alguma mulher escritora. Isso é algo para o qual vamos nos atentando cada vez mais hoje.

Há reflexões sobre prosa e poesia. O artigo sobre Augusto dos Anjos, por exemplo, Um poeta acima de qualquer escola, é uma delícia. O livro é um diálogo com o leitor, um guia de leituras também, com sugestões excelentes. No fim das contas, o que Linaldo, apaixonado e profícuo leitor, está dizendo mesmo é: leia, leia muito, pois se isso não garante (e não garante) que se será um bom escritor, a falta de leitura muito menos.

Caso algumas declarações de Receitas de como se tornar um bom escritor estivessem escritas em posts do Facebook, certamente gerariam polêmicas, animosidades e brigas, onde todos falariam e ninguém ouviria ninguém. Essa é a grande vantagem do livro; no livro ainda é possível ouvir, discordar, concordar, mediar internamente e considerar as divergências. Receitas de como se tornar um bom escritor é um livro ótimo, uma conversa concentrada e inteligente nesses tempos de louvor ao eco, ao raso e ao obscuro.

Os poetas não leem os poetas?

Pode até parecer contraditório o que está escrito acima, no título deste artigo. Mas a provocação de Eduardo Lacerda, jovem editor da Patuá e poeta, em entrevista a este jornalista, vai por aí. Lacerda diz com todas as letras: ‘Se os autores de poesia também fossem leitores de poesia, então poesia não daria prejuízo’. E diz mais: ‘O desejo de publicação – publicação em qualquer lugar, com qualquer qualidade – é muito maior do que o desejo de se estabelecer um diálogo com outros escritores e com a própria editora. É muito maior o desejo de publicar do que o desejo de ler. E eu acho estranho’”.
(p. 37)

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Receitas de como se tornar um bom escritor
Linaldo Guedes
Ed. Chiado
2015


sábado, 11 de novembro de 2017

Aqui, no coração do inferno, de Micheliny Verunschk


Por Adriane Garcia

Sempre que gosto bastante de um livro, procuro escrever sobre ele. Primeiro para deixar um registro para mim, depois, porque minha leitura pode despertar interesse pelo livro em algum outro (onde estará?) leitor.

Li o livro Aqui, no coração do inferno (ed. Patuá, 2016), de Micheliny Verunschk, durante dois dias desta semana. O livro é envolvente, tem fluidez e o que mais gostei: tem uma tensão daquelas em que a gente enquanto lê sabe que está meio refém da autora.

Tudo começa quando o delegado da cidade, pai de uma menina de 15 anos, a narradora (cujo nome não falarei, já que é uma descoberta essencial para um dos prazeres dessa leitura), traz um garoto de 14 anos, acusado de vários assassinatos, para ficar preso provisoriamente na cozinha de sua própria casa. A narradora, a madrasta e a irmã ficam, por alguns dias, convivendo com essa presença esdrúxula.

É pelos olhos da menina adolescente que vamos conhecer a história, e é por seus olhos e palavras que, enquanto queremos saber mais sobre o suposto assassino, tomamos ciência da vida da própria menina: as lembranças que tem da mãe, a relação com a família, com a cidade, o lugarejo violento de fim de mundo para onde o pai foi transferido, o horror e o mistério que ela colhe, em segredo, da gaveta de inquéritos do pai.

Micheliny constrói sua história na cidade de Santana, em um cenário onde a violência está naturalizada, onde o machismo – essa forma de violência que agrupa outras tantas – está naturalizado, onde o painel político da ditadura militar aparece deixando rastros, angústias e suspeitas sobre os desaparecidos. Tudo isso transformando e sendo transformado, na usina interior que é sua protagonista, menina sagaz, inteligente, questionadora que fala tanto de masturbação feminina quanto da dúvida sobre o papel que escolherá para si, mas de antemão já adiantando que essa escolha será dela.

Sem dar respostas, Aqui, no coração do inferno, faz com que indaguemos sobre nossa sociedade, nossa liberdade, nossas meninas e meninos, neste país que parece obra de ficção.

Ah, não posso me esquecer de dizer que vamos ávidos caminhando para o final deste volume e ficamos surpreendidos com a habilidade com a qual a romancista o termina.

Recomendo muitíssimo.


Fui à cozinha e perguntei pra ele baixinho

Tu quer me comer?

Dessa vez, eu não saí correndo. Esperei uns cinco segundos pela resposta que não veio e emendei outras perguntas, apressadamente

Vai me dar uma dentada, vai?

É verdade que você comeu um cara?

Que gosto tem carne de gente?

Será que papai bateria em mim se sonhasse que eu tava na cozinha de papo com o garoto doido e assassino? Será que me amarraria ao pé da mesa feito uma bela galinha de domingo?”
(p. 81)

***
Aqui, no coração do inferno
Micheliny Verunschk
Romance
Ed. Patuá

2016