quinta-feira, 5 de abril de 2018

Olhos d’água - de Conceição Evaristo




Por Adriane Garcia


O livro Olhos d’água (ed. Pallas), de Conceição Evaristo, traz 15 contos que lhe dão uma unidade inquestionável. Os personagens dos contos de Conceição Evaristo frequentam o mesmo mundo e mostram, dele, suas várias e terríveis facetas.

Ler Olhos d’água é estar em contato com uma literatura capaz de encantar e emocionar, de levar o leitor numa viagem da imaginação e, ao mesmo tempo, colocar seus pés na realidade daqueles que só podem conviver com a miséria material e com a violência urbana, pois nunca tiveram opção e jamais frequentaram a inexistente meritocracia brasileira.

Terminada a leitura, pensei, imediatamente, na famosa frase de Joãozinho Trinta: “quem gosta de miséria é intelectual”.  A frase, certamente, é ancorada na análise dos discursos que querem poetizar a pobreza, que querem conservar a miséria como se ela devesse ser um patrimônio imaterial do Brasil.

Conceição Evaristo vai na linha contrária. Escritora com profundo domínio do fazer literário, oferece-nos cenários e situações de miserabilidade, mas não dá ou sugere à miséria bons predicados. Nos contos de Conceição Evaristo, a miséria destrói, corrói, diminui, amputa, põe em risco, encarcera, dizima, incrimina, assassina, mata.

Ao mesmo tempo, a autora não confunde a pobreza com o pobre. Seus personagens são profundamente humanizados, complexos, lutadores nas mais duras e injustas batalhas, com destaque especial para as mulheres, as mulheres negras, mais especialmente para as mães, que sobrevivem quando tudo é feito para que não sobrevivam.

Sendo também poeta, as narrativas de Conceição Evaristo são tocadas pela poesia, há um lirismo na composição de algumas palavras e uma empatia aguda pelo outro, enquanto seu texto é firme e contundente.

Em Olhos D’água, conto que dá nome ao livro, a filha, após anos em outro estado, não consegue se lembrar da cor dos olhos da mãe. Na tentativa de forçar essa memória, o leitor conhece os detalhes da infância da protagonista.  Em Ana Davenga, Conceição nos prende na narrativa não linear; assim, queremos saber, junto com Ana Davenga, o que aconteceu com seu homem. Em Duzu-Querença, a fome é o motor das fantasias, característica recorrente também em Olhos d’água. Em Maria, a vida difícil e tão explorada de uma empregada doméstica é dada a conhecer com uma síntese incrível, tudo numa fatal viagem de ônibus. Em Quantos filhos Natalina teve, um conto corajoso sobre a maternidade e a sua negação. Em Beijo na face, a violência doméstica, a vida em cárcere de uma mulher casada, pois em completa vigilância. Em Luamanda, o direito da mulher aos amores, ao amor livre de etarismo e gênero. Em O Cooper de Cida, a mulher e a pressa, a mulher e o relógio, as demandas várias na vida de uma mulher. Em Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos, a rotina surreal das comunidades em guerra pelo tráfico, as comunidades abandonadas pelo Estado, o endereço de muitas das balas perdidas. Em Di Lixão, a capacidade enorme de Conceição Evaristo de nos fazer ver aquilo com o qual, infelizmente, acostumamo-nos, a ponto de deixarmos de perceber: que todo mendigo, morador de rua, indigente foi criança um dia. Em Lumbiá, o trabalho de crianças, dois meninos, vendedores ambulantes de amendoim, chiclete e flores e o encantamento de Lumbiá pelas luzes de Natal, que não são para ele. Em Os amores de Kimbá, o desgosto por estar no meio da miséria, em um lugar visivelmente miserável, a consciência da finitude, agravada pela pobreza e uma reflexão sobre pertencimento e identidade. Em Ei, Ardoca, uma cena que surpreende o leitor, pela desumanização efetuada sobre aquele que precisava de ajuda. Em A gente combinamos de não morrer, o pacto, entre os amigos, de ficar vivo e a grave verdade do genocídio da juventude negra brasileira: “Deve haver uma maneira de não morrer tão cedo e de viver uma vida menos cruel”. Em Ayoluwa, a alegria do nosso povo, Conceição Evaristo nos oferece uma conto mítico, onde clama pela alegria e a esperança, sabida a força do povo negro.

Olhos d’água é um livro que precisa ser lido, não somente porque retrata a nação na qual foi escrito, por alguém que conhece um lado imenso do Brasil, mas porque é literatura cheia de apuro, capaz de chegar à “cabeça-coração”.

Impossível fechar Olhos d’água e não pensar nas injustiças sociais, na força das pessoas pobres, especialmente na força do povo que foi e é estigmatizado por ter pele negra, que habita e constrói, todo os dias, esse país.

O mais brilhante de Conceição Evaristo é conseguir deixar claro que a miséria é uma tragédia e mostrar a grandeza dos miseráveis, sem que para isso tenha que recorrer a qualquer proselitismo.  

A escravidão deixou uma dívida imensa. Dívida que nunca se começou a pagar. A despeito disso, o pobre vence. E vencer, percebe-se em Olhos d’água, é, por ora, conseguir viver mais um dia.

Ficamos plenos de esperança, mas não cegos diante de todas as nossas dificuldades. Sabíamos que tínhamos várias questões a enfrentar. A maior era a nossa dificuldade interior de acreditar novamente no valor da vida... Mas sempre inventamos a nossa sobrevivência. Entre nós, ainda estava a experiente Omolara, a que havia nascido no tempo certo. Parteira que repetia com sucesso a história de seu próprio nascimento, Omolara havia se recusado a se deixar morrer.” (p. 114).



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Olhos d'água
Conceição Evaristo
Contos
Ed. Pallas
2016