quarta-feira, 21 de março de 2018

Caderno de Intermitências – de Rosana Chrispim




Por Adriane Garcia

Intermitentes são os nossos estados interiores. É por essa característica do estar humano que Rosana Chrispim desenvolve os poemas de Caderno de Intermitências (ed. Patuá, 2017).

A poesia de Chrispim, trabalhada com a qualidade de enigma comunicável, é aquilo que se diz e aquilo que se esconde, conforme ela já nos dá uma pista na epígrafe de Clarice Lispector: “Ouve-me, ouve meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa.”

Em Caderno de intermitências, a passagem do tempo aparece como o elemento que nada abranda, nada acrescenta no sentido do conhecimento, apenas aumenta as dúvidas e as incertezas. Transpor a si mesmo não é possível, e até mesmo a saída que a poeta aponta não revela muita esperança, pois “se/ desse para ver/ com os olhos alheios/ pudesse crer/ com a fé dos outros/ calmaria // as horas só/ contradizem toda/ ilusão”.

Em um mundo interior travado de lutas – e esse é o palco onde a poesia de Rosana Chrispim se passa – a condição humana é marcada pela angústia, pois somos feitos do que é tênue, inconstante e indefinível. Nada dura ou se mantém. Lidar com uma mutabilidade permanente (eis o paradoxo) pode levar à tentação do auto-engano ou ao imenso cansaço de existir. Consciente, o ser vê o mundo como lama, imundície estabelecida pelo poder, que usa a religião, a penúria espiritual, os preconceitos, os jogos sujos da dominação social e econômica para se perpetuar.

Nesse contexto, o poema surge como reação a essa batalha interna, do ser que sabe do mundo o suficiente para desprezá-lo, mas que, pela própria condição, não pode deixar de viver nele. O poema é o acontecimento luminoso no breu, porque ainda pode vir tomado de encantamento: “no meio/ a flor (do) improvável/ estranheza e encanto/ entre espinhos não// na fenda entre/ lugar e hora/ o golpe do olhar/ desprevenido pronto/ para ver/ ?/ nem tudo perdido”. A beleza é a forma de resistir, as coisas esperam para ser definidas pela palavra e só assim a vida ganha algum sentido.

Poesia reflexiva, a poeta fala para aquele que se dispõe a silenciar e perceber que o nosso mal não vem de outra fonte que não seja a nossa; fala de nossa impotência, nossa imperícia, nossa insuficiência, “incautos/ dublês de navegantes/ e peixes”. O silêncio pertence aos sábios e só nele é possível alguma preservação. Depois de descortinar o real, o que sobra?

Em versos de uma melancolia carregada de beleza, onde “o que perdura é/ árido”, Rosana Chrispim, em determinado momento, diz encontrar o poema, mas não a poesia. Não é verdade. Ela encontra os dois.


Sobre voo

eles que já não
tinham asas
quando nasciam as minhas
aparavam
para que ao usá-las mantivesse
os pés no chão

entendi o ar
e o caminho
por esse axioma

assim
que sendo ave nunca
fui pássaro


paliativo

novas portas de
bares
farmácias
igrejas
(variações sobre o mesmo equívoco)
abrem-se em profusão
os homens com suas feridas
os males com suas metástases
todos muitos e nenhum

almas cada vez mais rasas
e degradação cumprida
a risco(a)


reserva

primeiro falar
herança acúmulo
e significação

gozo e tormento

depois calar
aprendizado
preservação

a palavra deixada só
para os ouvidos

comedimento e tato

o silêncio apre(e)ndido é
indolor à carne


poemico

nem
nada vale a pena
porque a alma
sabe-se
pequena
!

***
Cadernos de intermitências
Rosana Chrispim
Poesia
Ed. Patuá
2017




4 comentários:

  1. Nossa, Adriane, fiquei de fato emocionada! Que leitura sensível e generosa! Grata. Gratíssima.

    ResponderExcluir
  2. Grata, também, Rosana, por oferecer as suas palavras.
    Grande abraço.

    ResponderExcluir
  3. Excelente resenha para um grande trabalho. Parabéns à Rosana Chrispim pela consistência de sua poética e à Adriane, pela leitura sofisticada.

    abs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Gilberto, querido
      que alegria você por aqui.
      Obrigada pela leitura e pelo retorno
      Abraço para todos daí de São Miguel

      Excluir