quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Cavala – de Sérgio Tavares





Por Adriane Garcia


Termino de ler o livro de contos Cavala (ed. Record, 2010), de Sérgio Tavares. Livro que li sem pausa e que, imediatamente reli. É que não dá para ficar com o pesar de, talvez, ter perdido algo no torvelinho em que ele nos mete.

O livro, de 96 páginas, é composto por quatro contos, dos quais o primeiro, “Cavala”, ocupa 58 delas. “Cavala” conta a história de uma modelo internacional que, após ter vivido uma carreira de sucesso, sucumbe à anorexia e bulimia e, depois de várias internações psiquiátricas, vive sob os cuidados dos pais. Na sequência de um acidente nas passarelas, da doença e do tratamento terapêutico, a protagonista adquire um transtorno obsessivo compulsivo em altíssimo grau, em que por meio dos números, somas, divisões, subtrações, multiplicações e medidas, procura alcançar o equilíbrio de não permitir que seu cérebro dê espaço para pensamentos e lembranças ruins. Assim, ela sabe, por meio de associações, que se avistar um carro vermelho, terá que avistar, em seguida, um carro amarelo para a conta zerar e alcançar o equilíbrio. Só isso faria um dia ruim (o carro vermelho) se transformar num dia bom (o carro amarelo), ou no caso de ver dois carros vermelhos, teria que ver, em seguida, dois carros amarelos; se a conta não zerar com as cores dos carros, será preciso zerar com as placas dos carros, de modo que alguma conta matemática resulte em zero com os números das placas. Se a personagem não consegue esse zero, ela se desespera e se desequilibra. Totalmente. O leitor dentro da cabeça dela.

Acompanhar a protagonista de “Cavala” é uma experiência literária interessantíssima com final surpreendente. Sérgio Tavares nos leva em companhia da loucura, tão perto que podemos tocá-la com a mão. Justamente na busca obsessiva por equilíbrio, valor de salvação que dá a ele quem o perdeu, é que se o perde novamente. O círculo vicioso, espiral infinita, dolorida e sôfrega de uma viagem muitas vezes sem volta, onde um ser humano tenta segundas chances que nunca se viabilizam. “Cavala” é asfixiante e claustrofóbico, uma oportunidade para leitores corajosos, que gostam de visitar prisões onde não se enxergam as chaves.

O segundo conto é “Fome”. Nesse conto, a compulsão da protagonista é por sexo. Aqui, também, o descontrole, a consciência do desequilíbrio e uma espécie de desistência de vencer a compulsão. Diferentemente de “Cavala”, cuja protagonista crê que obterá sucesso no autocontrole, em “Fome” a protagonista admite sua falta de forças. No limite, traz um mendigo do lixão (personagem que também aparece no primeiro conto) para dentro de seu quarto, para a sua cama. Todos os personagens deste livro estão expostos a perigos, violências e ambientes marcados por sujeira e excrementos.

Em “Sobre a pélvis”, o narrador é um homem, homossexual, voyeur, faxineiro de um banheiro público onde realiza o desejo de ver homens urinando e imagina outras fantasias. É também com os clientes no banheiro público que consegue algumas relações sexuais. Diferentemente das protagonistas de “Cavala” e de “Fome”, o protagonista de “Sobre a pélvis” narra sem se preocupar com a questão do controle, mas assim como as outras sabe que está numa situação da qual não consegue sair: “sinto-me sórdido como um escravo tigre. prisioneiro deste cárcere de louça encardida, arquitetado para o despejo de necessidades fisiológicas, esguicho, agacho, escovo e lavo, cumprindo a pena que eu mesmo me sentenciei.

O último conto do livro é “Papel de cão”. Conto instigante, no qual o leitor não encontra fuga. É preciso aceitar o que o adolescente morador de rua relata. Só há mesmo o seu relato. É o relato de uma vítima, de um algoz e de um louco. Em “Papel de Cão”, Sérgio Tavares nos dá a fala de um adolescente abusado sexualmente por um pedófilo. O protagonista de “Papel de cão” é retirado das ruas, de vez em quando, para atender ao doutor Ivone. Desde o começo do conto sabemos que o menino possui um cão e que este cão (imagem de uma revista que ele recorta e mantém no bolso) é imaginário e, ao mesmo tempo, um alter ego onde se retrata violência e animalidade. Diferentemente dos outros três protagonistas, em “Papel de cão”, o narrador não apresenta nenhuma fresta de consciência sobre o processo que vive, sendo a realidade em que acredita a única realidade que conhece. Talvez por isso ele seja extremamente perigoso, porque não há um embate entre suas duas personas, porque sua esquizofrenia considera acordos pacíficos entre ele e o seu cão.

Cavala é um livro de contos primoroso em seu conjunto. Sérgio Tavares acerta com exatidão o nome do conto homônimo e o nome da coletânea. Assim como Cavala é tanto palavra aviltante quanto grandiosa, também pode nos remeter a cavalo, o nome utilizado em algumas religiões e seitas de base espírita para designar aquele que recebe o espírito, a força que vem de fora, alienígena ao mundo trivial, normal. Os personagens de Sérgio Tavares estão todos possuídos por uma força que não controlam e que lhes aparece como algo que não define a sua totalidade. Quem vem por essas páginas acompanhando-os de dentro de suas cabeças sabe que eles, os que contam, são algo mais que apenas estes que agem.

“certa vez, acordei e não conseguia encontrar o caderno. revirava tudo e os lençóis e não conseguia encontrá-lo. os movimentos bruscos começaram a me esgotar e, sem as páginas para me dizer o que pensar, fui ficando tonta: mareando meus olhos em imagens afogadas que me dobravam e vomitei.
lembro que era só gosma, uma espuma amarelada e amarga sendo chupada pelo carpete já que eu não comia havia... algumas horas?, mas que me trouxera um alívio tremendo, uma clareza mental inigualável que, segundos depois me permitiu encontrar o caderno logo ali. depois disso, comecei a vomitar muito. vomitava para obter descanso, me sentir tranquila, evitar que qualquer mal me atingisse e que essa borra de pensamentos imperfeitos e anseios se avolumasse e ganhasse corpo – o meu corpo.” (Cavala, p. 26 – 27)

***
Cavala
Sérgio Tavares
Contos
Ed. Record

2010

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