quinta-feira, 5 de abril de 2018

Olhos d’água - de Conceição Evaristo




Por Adriane Garcia


O livro Olhos d’água (ed. Pallas), de Conceição Evaristo, traz 15 contos que lhe dão uma unidade inquestionável. Os personagens dos contos de Conceição Evaristo frequentam o mesmo mundo e mostram, dele, suas várias e terríveis facetas.

Ler Olhos d’água é estar em contato com uma literatura capaz de encantar e emocionar, de levar o leitor numa viagem da imaginação e, ao mesmo tempo, colocar seus pés na realidade daqueles que só podem conviver com a miséria material e com a violência urbana, pois nunca tiveram opção e jamais frequentaram a inexistente meritocracia brasileira.

Terminada a leitura, pensei, imediatamente, na famosa frase de Joãozinho Trinta: “quem gosta de miséria é intelectual”.  A frase, certamente, é ancorada na análise dos discursos que querem poetizar a pobreza, que querem conservar a miséria como se ela devesse ser um patrimônio imaterial do Brasil.

Conceição Evaristo vai na linha contrária. Escritora com profundo domínio do fazer literário, oferece-nos cenários e situações de miserabilidade, mas não dá ou sugere à miséria bons predicados. Nos contos de Conceição Evaristo, a miséria destrói, corrói, diminui, amputa, põe em risco, encarcera, dizima, incrimina, assassina, mata.

Ao mesmo tempo, a autora não confunde a pobreza com o pobre. Seus personagens são profundamente humanizados, complexos, lutadores nas mais duras e injustas batalhas, com destaque especial para as mulheres, as mulheres negras, mais especialmente para as mães, que sobrevivem quando tudo é feito para que não sobrevivam.

Sendo também poeta, as narrativas de Conceição Evaristo são tocadas pela poesia, há um lirismo na composição de algumas palavras e uma empatia aguda pelo outro, enquanto seu texto é firme e contundente.

Em Olhos D’água, conto que dá nome ao livro, a filha, após anos em outro estado, não consegue se lembrar da cor dos olhos da mãe. Na tentativa de forçar essa memória, o leitor conhece os detalhes da infância da protagonista.  Em Ana Davenga, Conceição nos prende na narrativa não linear; assim, queremos saber, junto com Ana Davenga, o que aconteceu com seu homem. Em Duzu-Querença, a fome é o motor das fantasias, característica recorrente também em Olhos d’água. Em Maria, a vida difícil e tão explorada de uma empregada doméstica é dada a conhecer com uma síntese incrível, tudo numa fatal viagem de ônibus. Em Quantos filhos Natalina teve, um conto corajoso sobre a maternidade e a sua negação. Em Beijo na face, a violência doméstica, a vida em cárcere de uma mulher casada, pois em completa vigilância. Em Luamanda, o direito da mulher aos amores, ao amor livre de etarismo e gênero. Em O Cooper de Cida, a mulher e a pressa, a mulher e o relógio, as demandas várias na vida de uma mulher. Em Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos, a rotina surreal das comunidades em guerra pelo tráfico, as comunidades abandonadas pelo Estado, o endereço de muitas das balas perdidas. Em Di Lixão, a capacidade enorme de Conceição Evaristo de nos fazer ver aquilo com o qual, infelizmente, acostumamo-nos, a ponto de deixarmos de perceber: que todo mendigo, morador de rua, indigente foi criança um dia. Em Lumbiá, o trabalho de crianças, dois meninos, vendedores ambulantes de amendoim, chiclete e flores e o encantamento de Lumbiá pelas luzes de Natal, que não são para ele. Em Os amores de Kimbá, o desgosto por estar no meio da miséria, em um lugar visivelmente miserável, a consciência da finitude, agravada pela pobreza e uma reflexão sobre pertencimento e identidade. Em Ei, Ardoca, uma cena que surpreende o leitor, pela desumanização efetuada sobre aquele que precisava de ajuda. Em A gente combinamos de não morrer, o pacto, entre os amigos, de ficar vivo e a grave verdade do genocídio da juventude negra brasileira: “Deve haver uma maneira de não morrer tão cedo e de viver uma vida menos cruel”. Em Ayoluwa, a alegria do nosso povo, Conceição Evaristo nos oferece uma conto mítico, onde clama pela alegria e a esperança, sabida a força do povo negro.

Olhos d’água é um livro que precisa ser lido, não somente porque retrata a nação na qual foi escrito, por alguém que conhece um lado imenso do Brasil, mas porque é literatura cheia de apuro, capaz de chegar à “cabeça-coração”.

Impossível fechar Olhos d’água e não pensar nas injustiças sociais, na força das pessoas pobres, especialmente na força do povo que foi e é estigmatizado por ter pele negra, que habita e constrói, todo os dias, esse país.

O mais brilhante de Conceição Evaristo é conseguir deixar claro que a miséria é uma tragédia e mostrar a grandeza dos miseráveis, sem que para isso tenha que recorrer a qualquer proselitismo.  

A escravidão deixou uma dívida imensa. Dívida que nunca se começou a pagar. A despeito disso, o pobre vence. E vencer, percebe-se em Olhos d’água, é, por ora, conseguir viver mais um dia.

Ficamos plenos de esperança, mas não cegos diante de todas as nossas dificuldades. Sabíamos que tínhamos várias questões a enfrentar. A maior era a nossa dificuldade interior de acreditar novamente no valor da vida... Mas sempre inventamos a nossa sobrevivência. Entre nós, ainda estava a experiente Omolara, a que havia nascido no tempo certo. Parteira que repetia com sucesso a história de seu próprio nascimento, Omolara havia se recusado a se deixar morrer.” (p. 114).



***
Olhos d'água
Conceição Evaristo
Contos
Ed. Pallas
2016

sexta-feira, 23 de março de 2018

Anacrônicos – de Luiz Bras




Solidão é isso: um golpe no rosto e outro na nuca? Morrer sozinha, sob uma montanha de corpos indiferentes?


Por Adriane Garcia


Anacrônicos (@linkeditora), de Luiz Bras (heterônimo de Nelson de Oliveira) é um livro feito de ótima ficção científica. Em edição bilíngue (português-espanhol), a novela ocupa 34 páginas pulsantes, com uma narrativa ágil, que aguça a curiosidade do leitor até o fim. A história envolve uma série de surpresas e o narrador é uma delas (portanto, sobre isso, nada contarei).

Em um mundo futuro, que não parece tão distante, haja vista a velocidade desnorteadora dos avanços tecnológicos, uma mulher, cuja idade não fica clara, pois os processos de juventude e velhice já se confundem, vive o inusitado de receber em casa a visita da mãe, fazendo para a filha um bolo assado à moda antiga, numa espécie de déjà vu. O detalhe é que a mãe já está morta, há décadas.

Logo percebemos que o aparecimento de entes queridos que já morreram é um fenômeno que ultrapassa as fronteiras da casa da protagonista. “Essa cena é real? Está mesmo acontecendo?”

Com o tema da morte tomando a cena e na tentativa de entender o fenômeno, as pessoas acorrem aos cemitérios (com memórias digitais), mas toda a relação com a morte e com os mortos começa a se modificar, pois qual o novo sentido do fim quando ele já não é mais definitivo neste mundo? Qual o sentido de visitar um cemitério se os mortos retornaram para casa? Que interação é possível nesse fenômeno? O que acontece com as lembranças (que sabemos, são construídas também pela imaginação) quando o processo lembrado é claramente diferente do processo agora possível de ser observado e posto à prova?

Há tempos a ficção científica aponta a escravização das máquinas pelos homens e a inversão: a dos homens pelas máquinas. Neste Anacrônicos, os esclaus (radical que dá origem à palavra escravo em várias línguas) são robôs desprezados pelos humanos, colocados para realizar os serviços considerados mais baixos. O leitor descobrirá surpresas por aqui também.

Além de um livro muito criativo, que consegue falar de um tema como a morte, usando de muita lucidez, Luiz Bras nos presenteia com um humor inteligente e a chance de assistirmos à volta de mortos imagináveis e inimagináveis.


SUA MÃE APARECE NA COZINHA todos os dias às 15h15, faz o bolo e desaparece às 16h45. Não se atrasa nem falta.

Essa é a breve história de como a improvável felicidade virou algo pegajoso e frio.

Medo.

Ao entrar na cozinha, primeiro você imaginou que estivesse delirando. Mas a consistência da cena não era compatível com tudo o que você já leu sobre delírios e alucinações.

Depois você tentou conversar com sua mãe. Mas logo percebeu que a comunicação seria impossível.

Sempre que aparece, ela segue o mesmíssimo roteiro, como se estivesse presa num filme. Os mesmos movimentos, as mesmas falas na mesma sequência.

Você até imaginou que se tratava de uma projeção holográfica de altíssima qualidade.

Porém essa suposição se desfez rápido. Bastou você tocar sua mãe no braço pra constatar que ela não era uma simples ilusão audiovisual. Ela é de carne e osso.”

(p.15/16)


***
Anacrônicos
Luiz Bras
Novela
@linkeditora
2017



quarta-feira, 21 de março de 2018

Caderno de Intermitências – de Rosana Chrispim




Por Adriane Garcia

Intermitentes são os nossos estados interiores. É por essa característica do estar humano que Rosana Chrispim desenvolve os poemas de Caderno de Intermitências (ed. Patuá, 2017).

A poesia de Chrispim, trabalhada com a qualidade de enigma comunicável, é aquilo que se diz e aquilo que se esconde, conforme ela já nos dá uma pista na epígrafe de Clarice Lispector: “Ouve-me, ouve meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa.”

Em Caderno de intermitências, a passagem do tempo aparece como o elemento que nada abranda, nada acrescenta no sentido do conhecimento, apenas aumenta as dúvidas e as incertezas. Transpor a si mesmo não é possível, e até mesmo a saída que a poeta aponta não revela muita esperança, pois “se/ desse para ver/ com os olhos alheios/ pudesse crer/ com a fé dos outros/ calmaria // as horas só/ contradizem toda/ ilusão”.

Em um mundo interior travado de lutas – e esse é o palco onde a poesia de Rosana Chrispim se passa – a condição humana é marcada pela angústia, pois somos feitos do que é tênue, inconstante e indefinível. Nada dura ou se mantém. Lidar com uma mutabilidade permanente (eis o paradoxo) pode levar à tentação do auto-engano ou ao imenso cansaço de existir. Consciente, o ser vê o mundo como lama, imundície estabelecida pelo poder, que usa a religião, a penúria espiritual, os preconceitos, os jogos sujos da dominação social e econômica para se perpetuar.

Nesse contexto, o poema surge como reação a essa batalha interna, do ser que sabe do mundo o suficiente para desprezá-lo, mas que, pela própria condição, não pode deixar de viver nele. O poema é o acontecimento luminoso no breu, porque ainda pode vir tomado de encantamento: “no meio/ a flor (do) improvável/ estranheza e encanto/ entre espinhos não// na fenda entre/ lugar e hora/ o golpe do olhar/ desprevenido pronto/ para ver/ ?/ nem tudo perdido”. A beleza é a forma de resistir, as coisas esperam para ser definidas pela palavra e só assim a vida ganha algum sentido.

Poesia reflexiva, a poeta fala para aquele que se dispõe a silenciar e perceber que o nosso mal não vem de outra fonte que não seja a nossa; fala de nossa impotência, nossa imperícia, nossa insuficiência, “incautos/ dublês de navegantes/ e peixes”. O silêncio pertence aos sábios e só nele é possível alguma preservação. Depois de descortinar o real, o que sobra?

Em versos de uma melancolia carregada de beleza, onde “o que perdura é/ árido”, Rosana Chrispim, em determinado momento, diz encontrar o poema, mas não a poesia. Não é verdade. Ela encontra os dois.


Sobre voo

eles que já não
tinham asas
quando nasciam as minhas
aparavam
para que ao usá-las mantivesse
os pés no chão

entendi o ar
e o caminho
por esse axioma

assim
que sendo ave nunca
fui pássaro


paliativo

novas portas de
bares
farmácias
igrejas
(variações sobre o mesmo equívoco)
abrem-se em profusão
os homens com suas feridas
os males com suas metástases
todos muitos e nenhum

almas cada vez mais rasas
e degradação cumprida
a risco(a)


reserva

primeiro falar
herança acúmulo
e significação

gozo e tormento

depois calar
aprendizado
preservação

a palavra deixada só
para os ouvidos

comedimento e tato

o silêncio apre(e)ndido é
indolor à carne


poemico

nem
nada vale a pena
porque a alma
sabe-se
pequena
!

***
Cadernos de intermitências
Rosana Chrispim
Poesia
Ed. Patuá
2017




quinta-feira, 15 de março de 2018

Escafandro – de Wilson Torres Nanini



rezar não adianta
é difícil o mundo
nos aceitar sem algum suborno”


a estrada é árdua
a ampulheta é célere
a lamparina é parca”





Por Adriane Garcia


A palavra “escafandro” já evoca uma imagem poderosa: um escafandro tanto lembra perigo quanto proteção. A sonoridade é tanto exótica quanto parece um verbo no gerúndio. Um escafandrista pode nos remeter ao futuro descobrindo o passado, e também ao próprio passado, desenhado neste objeto lúdico de exploração aquática. Obviamente, poetas diante da palavra “escafandro” não a deixariam escapar por nada, ainda mais se ela lhes fosse soprada em um sonho.

Sonhada por Wilson Torres Nanini, juntamente com a palavra “redemunho”, que nos coloca em movimento imediato, ele a transformou em um livro: Escafandro (ed. Patuá, 2015).

Escafandro é uma coletânea belíssima, cujos poemas são intitulados com iniciais de nomes de pessoas. O livro traz à tona retratos de família, conta as memórias de uma comunidade, pelo olhar do poeta: uma comunidade mineira, rural e demasiadamente humana. Nos poemas de Nanini, a memória, impregnada de afeto, mistura a vida das personagens com o sentimento do autor sobre elas. O resultado é um mergulho profundo nas questões existenciais, envolvendo o sentido da vida, o tempo, a irreversibilidade, as ilusões desfeitas, as fatalidades a que estamos expostos, a experiência humana sempre forjada no erro, a morte e, principalmente, a precariedade. Diante do difícil exercício de viver, Nanini evoca, reincidentemente, a necessidade dos anestésicos: o amor, a distração dos afazeres, a religiosidade, os buquês de flores de ipês salvadores, na luta constante, exterior e interior entre o bem e o mal.

É preciso coragem para vestir um escafandro. Quem o veste, sabe que visitará os mortos, que entrará no reino amniótico das águas, que recolherá os rastros de uma raça extinta. A memória, sabe Nanini, é um relato ajudado pela imaginação, quando precisa explicar para si mesma algum fóssil que encontra aqui e ali. Pelo silêncio, o homem submerge, e pela palavra emerge (borboleta-de-rapina). Por ela, o escafandrista nos conta, não sem dor, que esteve em um mundo cujo redemunho poderia enlouquecer qualquer um. É quando nos damos conta de que, enquanto líamos o livro, o mergulho também era feito dentro de nós.


padre O. da serenidade

e saber ir-se a deus
a velhice é um caminho
o câncer é um atalho –
quando os desejos já são múmias
de que valem as hóstias sem açúcar
aos dentes já ausentes?
a igreja
dói devagar – apesar
de em seu meio:
negações ruminando galos
a cisterna de águas-vivas bentas
apaziguando
o excesso de miragens
as muitas madalenas
que me juram excrementos
mesmo após eu as ter
livrado
do apedrejamento


dona L. do asilo

ela: cerne de cicuta
velhinha vestida de alarido
ciranda presépio e disparates
rumina rindo-se uma
cantilena hieroglífica

em nós dói ela
ninar perene boneca-
-de-pano (simulacro de seu
bebê fenecido de infância)

as fotografias de seus entes
(coágulos fantasmas) já sem nome

e uma solidão que
nunca foi mansa


dona E. N. das pamonhas

após as tachadas
interpreta deus
a felicidade é:
um domingo-à-tarde
(os cães satisfeitos com restos de comida e de afeto
os filhos orbitando em torno dela
aureolares)
segunda-feira entre novelas
iniciar a novena
pois “um peito em brasa só se apazigua
com cuspe divino”
– “deus me é o leito de uma sede-sem-margens” –
mas o coração é tão
desfiladeiro
aquilo pelo qual
mais morremos
mais nos mata”


tio N. dos brejos

inútil cálice com água
em uma casa submersa
demoro a minha sede
depurando os brejos
demoro a minha infância
decantando os assombros
e quando me chega o
apaziguamento
eis: uma água
uma água! –
póstuma ao incêndio


sargento M. dos provérbios

benzidas as roseiras
obtém-se a asfixia
apta para espingardas

cada um sabe com que cus
restituirá ao mundo
os ossos que engolira
com bocas incautas

difícil é resgatar as borboletas
voluntariamente encravadas
na ferrugem do autonaufrágio

as únicas vacas que não
vão para os brejos
são as aladas

qualquer pão volta a ser pedra
se demoramos a colher
o milagre oferto

***
Escafandro
Wilson Torres Nanini
Poesia
Ed. Patuá
2015


sexta-feira, 9 de março de 2018

Os ratos roeram o azul – De César Gilcevi




Por Adriane Garcia


você está fodendo tudo”
Minha alma começa a ser íngreme me escalam”

Terminei a leitura, fluida e absorvente, do livro Os ratos roeram o azul (ed. Letramento, 2016), de César Gilcevi. O título já é um poema inteiro, e o livro, no formato retangular, todo ilustrado com colagens de Warley Desali, é bonito e instiga ao manuseio. Livro para ler e para olhar.

Nas epígrafes, Gilcevi sugere seu universo eclético e vasto de referências, da tradição canônica da poesia ao rock, da literatura beat ao mundo católico e transcendente de Adélia Prado. No decorrer das páginas, encontramos tanto o eco de Drummond como o de Piva, mas em um exercício antropofágico do autor, emergindo uma poesia rica e de voz própria.

Assim como o volume é ilustrado com colagens que trabalham distorções sobre as fotografias de infância e dos antepassados do poeta, os poemas são tomados de memória e ancestralidade: “carrego o retrato empoeirado onde mamãe sorri/ sem dentes carrego este sonho intranquilo”. A cidade e seus arredores são o palco, ora atual, ora passado, para as cenas flagradas pela poesia. Belo Horizonte (e arredores), por vezes rural, aparece ao lado da metrópole urbana, com seu rio Arrudas poluído, acordando para a realidade difícil, cheia das baldeações daqueles que têm que dar conta do pão de cada dia, pois “o senhorio nunca dorme e me aguarda na portaria”.

Em seus versos, o poeta traça o surreal, o onírico e a realidade mais crua ( que de tão crua parece surreal). Entre imaginação e denúncia, a poesia de Gilcevi é um coquetel de excelente mistura. Assim, a igreja de São Sebastião no Barro Preto, inspira o poeta aos terríveis versos: “carrego o revel torso de são sebastião/esfaqueado por michês numa alameda sem saída do barro preto”. Os subúrbios o levam às “lolitas manchadas de acne & batom”. Em um jogo de empatia, Os ratos roeram o azul é um livro que, ao falar dos caminhos do poeta, acaba falando de uma cidade inteira, pelo olhar de quem pisa o seu chão.

A afirmação da ancestralidade é outro ponto fulcral em Os ratos roeram o azul. Ao dizer do “clã dos silva” e “clã dos souza”, dois títulos de poemas do livro, Gilcevi trabalha a profusão de etnias que compuseram a família, brancos, negros e índios. Em todo o livro pode-se perceber que o olhar do poeta é marcado pela experiência da diversidade, do sincretismo religioso e mesmo da recusa da religião. Também é notável o adensamento de sua interpretação de mundo quando somou às experiências de infância as leituras e informações da cultura letrada: “vó preta macera patuás me benze/ com alquímicas negras vogais”.

Assim como a infância é tema de vários poemas, ligada, não raro, à pobreza e à dificuldade econômica, “aqui as crianças já nascem/desmemoriadas do azul”, a adolescência ganha versos memoráveis, fazendo-nos pensar que a chegada do sêmen é, de certa forma, a morte do menino:

chega o outono
& eles constroem um cômodo só para mim
(macho apartado das irmãs & primas & seu jardim
urdindo o incesto & a orquídea

A juventude é retratada em diversos poemas que versam sobre dor, frustração amorosa, drogas e derrota, quase sempre ligada, direta ou indiretamente, à solidão: “se continuar assim morrerei/ perdulário poeta acoólatra velho/ & brocha recitando de cabeça lament for my cock/ acovardado no beliche de uma pensão no centro”. Tudo isso em poemas que, num fluxo, levam o leitor a ler até o fim, acompanhando a linguagem densa e forte, que sabe medir o lírico e o antilírico, alinhando-se a uma estética contemporânea.

Os ratos roeram o azul desperta nossos sentimentos universais, porque sabe cantar a sua aldeia.


Infância X
(barreiro de cima)

o meu pai teve a mãe
& o meu pai teve o pai
só que para ele ter o pai
ele teve os avós
a única viva é a mãe da mãe do meu pai
a bisa dasdor que matou o marido com o pilão
pra se casar com o primo
ele arrancou uma costela dela
& do osso nasceu uma amante
que com ele teve mais vinte anti-heróis
que sabiam amansar o azul & a pólvora
& povoaram o barreiro

deus viu que isso era bom
& foi-se embora


  1. clã dos silva

da parte do pai vinham os de pele escura & parda
índios pegos no laço ladrões d'além mar capitães do mato
idólatras do cobre da preguiça & das armas
malvivendo amontoados naquela casa pau a pique senzala
partiam para o leste sob a tutela da noche oscura
levavam na matula a bússola a meiota de cachaça
carcaças de pequenos animais
sapienciais pergaminhos: eis que vou agora dormir no pó
se me procurares pela manhã já não existirei

  1. clã dos souza
os irmãos da mãe na fronte acuada traziam sardas
lixo branco escorraçado das terras de lund
lazarones no monturo do morro das pedras
ralé de pés rachados sonâmbulos na encruzilhada
malvivendo amontoados naquela casa adobe senzala
pico & cola arranhando as grades da alma
falavam uma gíria bárbara & cheia de fúria
:o terceiro mundo vai explodir quem tiver de sapato não sobra


infância XII
(manual da mãe)

se você andar de costas
vai encontrar sua mãe morta
em pé atrás da porta
se pisar numa risca no chão
a espinha da mãe quebra
blusa do avesso não pode
chinelo virado a mãe morre
tá tudo na bíblia o que pode
o que não pode
juro pela minha mãe mortinha
bom é ter mãe
mesmo que seja uma silva

drogaria drugstore

ainda bem que vocês não me viram precoce drogaria drugstore
520 wolts no terceiro coração sobressalente & inafiançável
revirando vicious no mundaréu das tretas bocadas & beiras
ventosa vila pinho nova cintra betânia bonsucesso b.d.i magé
desemprego & buças feias sob o céu avariado
leréia language de beats suburbanos roubando carro pra dar um rolê
no olho da rua no olho do ku na casa do karalho na putaqopariu
o pau príapo porrete cocaínado a convidada
de xota azul & nariz guloso
serial killer crime scene madrugabasura de corpos desovados
ao que tudo indica devido ao tipo de vestimenta a vítima
era garota de programa falou na TV o delegado


*** 
Os ratos roeram o azul
César Gilcevi
Poesia
Ed. Letramento
2016


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A loucura dos outros – de Nara Vidal




Por Adriane Garcia


Tão bom o livro, a beleza já começa na dedicatória: “Para Ismália”. Quem não se lembra de Ismália, que era de Alphonsus de Guimarães e depois se tornou de todos nós? Ismália, a mulher voando da torre, o anjo suicida, a sublime louca das loucas.

A dedicatória dá a tônica de A loucura dos outros (ed. Reformatório), de Nara Vidal, e não é à toa que a referência vem da poesia. O texto de Nara, pelos vinte e dois contos que compõem a coletânea, é permeado de poesia, aqui e ali, entre destroços de vidas que passaram daquele ponto em que a loucura não pode mais ser desapercebida. Notamos a loucura de seus personagens, afinal, é fácil notar a loucura nos outros. Ifigênia, por exemplo, perde literalmente (e metaforicamente) a cabeça. É impossível não notar.

Os contos todos são intitulados com nomes de mulheres. A loucura é trabalhada por Nara Vidal pelo viés do abandono, da incompreensão e do rótulo, trazendo indagações sobre o preconceito, a moralidade, o machismo, o amor romântico, os papéis normatizados.

Também é interessante notar que, apesar dos contos serem intitulados com os nomes das mulheres que os habitam, nem sempre o protagonista é essa mulher. Em Marta, temos o marido que espera da esposa a mesma beleza que ela tivera quando se casaram: beleza de Úrsula Andress. Isso, anos depois, numa exigência de que a mulher paralise o tempo, quando ele mesmo, barrigudo e careca, não consegue perceber que está enredado num absurdo.

Em Ana Rosa, o marido, presidiário, criminoso confesso, só não admite que se conspurque a moral da esposa, em um exercício irracional de enganar a si mesmo. Em Vanessa, o drama de Marta reaparece, mas com outro enfoque. Vanessa engordou e o tempo fez com que o marido, Orlando, notasse sua baba no travesseiro. Não era mais a mulher para ele, mas poderia continuar sendo a mãe, a dona de casa, a mantenedora do lar, a que prepara as refeições. Cecília tem horror a homem bonito ou que lê literatura barata. Enquanto o marido a ignora, procura flertes, na rua, durante o dia. Procura algo que brilhe, na opacidade da rotina. Adriana não suporta mais o companheiro, não suporta olhá-lo, deseja que ele arrume uma amante. Maria Dulce saiu da Polônia, está de passagem pela Alemanha e indo ao Brasil, ao enterro do irmão que se suicidou. No caminho, o sexo, a infidelidade, a constatação de que é casada com um bom marido, o desejo da maternidade, o conflito com a própria mãe e a afirmação de que tem muita coragem, mas pouco coração. Selma vive num asilo e a cada passo se pergunta até quando se esticará o fio de sua vida. Lúcia criava, com Zé Luís, bodes e cabras e, juntos, produziam o melhor queijo de leite de cabra da região. Um dia, a vigilância sanitária fechou o negócio que, tão tradicional, não se encaixava nas novas regras. Lúcia teve que se refazer profissionalmente e ser a força dupla, já em idade avançada, quando Zé Luís perdeu o rumo. Amanda ainda espera que Marcos a olhe como da primeira vez, enquanto tenta desculpar as surras que ele lhe dá. Ana e Paulo discordam de muitas coisas e, surpreendentemente, souberam se acertar assim, e vivem bem. Marelena é uma menina doente, a narradora é sua mãe, vivenciando a dor funda de ver a loucura em casa, roubando a infância da filha. Rita é outra mãe, convivendo com essa inversão inaceitável que é a morte de um filho pequeno. Olívia não suportou a falta de seu homem morto e morreu em vida, os filhos em total abandono. Sílvia sai de casa para ver “loucos, miseráveis, amantes, depressivos” e, desta forma, não ficar em contato com esses seres dentro dela mesma. Sentada no transporte público, convive com a dura realidade de não ser mais notada por um homem, nem mesmo por um homem também invisível: “Senti o tempo me morder com dentes afiados de ingratidão”. Agora é Sílvia que, observando um homem casado, em passeio com a família, julga a esposa, aponta seus defeitos e se projeta como amante e alívio. Fláviafoi mãe porque teve medo de envelhecer sozinha” e se pergunta como foi acontecer de ser mãe, com ela, que nunca quis cuidar de ninguém. Érica é um conto de reflexão profunda sobre a morte de uma mãe: “ A morte não incomoda em nada quando dizima uma família inteira sustentada por uma mãe, em carinho, atenção, justiça e força”. Regiane é casada com Guilherme e se inscreve num trabalho de telessexo para poder trabalhar em casa e ter um horário flexível que se compatibilize com as funções domésticas. Débora, numa sessão com a psicóloga, oferece-nos um olhar verdadeiro e inusitado sobre sua indiferença com relação à irmã, seu gosto por gente velha, feia, estranha, e sua visão da maternidade como armadilha. Mírian, dentro de um vagão de trem, reflete sobre o tempo, sobre a doença terminal da mãe e sua morte. O conto, circular, tem um final deliciosamente surpreendente. Íris é a moça do interior que foi pedida em casamento por Silvério. Eternamente noiva, se apaixonou por Adriano, dono do novo armazém na cidade; homem mais velho, cheio de histórias e livros. Íris é um dos contos mais poéticos de A loucura dos outros, a tragédia contada em poesia.

Cruel, A loucura dos outros é uma leitura rica sobre relacionamentos. Com uma escrita fluida, a autora constrói personagens tão sinceros, que parecem ter nos flagrado. De fundo, Nara Vidal nos coloca diante dos temas universais: o tempo, o amor e a morte. No fim das contas, tantos de nós podemos estar ali, e estamos; pois, são o tempo, o amor e a morte aquilo que nos salva e nos enlouquece.


Era eu. No reflexo do vidro era eu. Meu cabelo era uma juba bem cuidada, meticulosamente bagunçada, com cheiro de flor quase murcha não fosse por mim mesma a injetar-me de água, na tentativa de evitar a tragédia que é a morte plena. Morrer aos poucos ainda é alguma vida.
Passei os olhos discretos pelo vagão. Um homem me chamou a atenção. Meio careca e já suado às oito da manhã. Traços finos, nariz agradável. Será que ele me queria?
Passava dias pensando se alguém ainda ia me querer. Rodopiei os olhos e vi um homem bonito. Tenho horror a homem bonito. Gosto de beleza em esculturas, quadros, não em homem. De certo eu era velha pra ele, mesmo que ele não tivesse menos que cinquenta anos. Notei a mulher que devia ser tão invisível quanto eu. Quis beijá-la, mas seria por pena.
Voltei os olhos para o homem meio careca. Ele lia literatura barata. Incomodou-me o meu desprezo. Se eu fosse menos esnobe, talvez meu marido notasse que eu tinha um mar nos olhos e que eu tinha uma boa estrutura óssea.
O homem meio careca notou que eu me via no reflexo. Eu jogava os cabelos pros lados na tentativa de um bom ângulo. Ele sorriu. Eu apertei os olhos. Enrubesci. Aquele homem não sonhava com uma mulher feito eu. Eu era tanto pra ele, e assim mesmo eu estava disposta a levantar a saia e mostrar meu mundo pra ele, pro homem meio careca.
Não trocamos telefone e nem um segundo olhar. Estive viva. Ninguém precisava saber disso. Agora precisava voltar a morrer. Depois do trabalho a volta pra casa me esperava”.
(Excerto do conto Cecília, p. 49/50)

***
A loucura dos outros
Nara Vidal
Contos
Ed. Reformatório
2016