terça-feira, 20 de junho de 2017

Dyonelio Machado, O cheiro de coisa viva - Introdução, seleção e notas de Maria Zenilda Grawunder



Interessantíssimo livro. A introdução de Maria Zenilda Grawunder, acrescida da seleção de entrevistas e anotações do próprio autor, trazidas a público pela organizadora, compõem um rico panorama sobre Dyonelio Machado, o escritor, médico e político rio-grandense, mais conhecido por seu romance Os ratos.

Tanto sua trajetória política (Dyonelio foi preso político na Era Vargas) quanto literária podem ser descobertas neste livro que ainda traz um inédito do autor, o romance O Estadista. 

Em O Estadista, Dyonelio descreve as relações patrimonialistas da República Brasileira, os vícios, favorecimentos e a falta de comprometimento ideológico dos políticos, cujo compromisso se dá apenas com o poder e tudo que dele se possa usufruir, esteja de que lado estiver. Na condução de seu protagonista, Dantas, o rapaz ambicioso que não mede esforços para galgar os mais altos postos, usando inclusive de relações íntimas com mulheres associadas a homens poderosos, Dyonelio leva o leitor aos bastidores da política nacional. 

O livro foi escrito em 1926 e continua mais atual do que nunca. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A morte de Ivan Ilitch - Tolstói e a perfeição ao falar sobre a morte




A novela A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, é, sem dúvida, dos mais perfeitos relatos e reflexões feitos em literatura sobre a morte.


A narrativa parte do enterro de Ivan Ilitch, caminhando, em seguida para a descrição do que fora sua vida de magistrado, marido, homem correto no que tange às convenções sociais. Sem deixar de notar a crítica ao estamento burocrático russo, o leitor, ao acompanhar os últimos dias de Ivan Ilitch, vai se deparar com um texto que assombra, pela sinceridade e genialidade com que a morte é tratada. No fundo, a grande pergunta é "qual a vida que vale a pena ser vivida?".

Procurando o sentido da morte, Ivan Ilitch procura o sentido da vida, das dores, do sofrimento. O leitor se surpreende com a forma com que Tolstói constrói esta "resposta". O último capítulo da novela é um dos melhores capítulos da literatura universal. Um livro brilhante, genial, fluido, cruel, compassivo, "demasiadamente humano". 

"O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de lógica de Kiesewetter - "Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal" - sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal, era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais. Ele fora o pequeno Vânia, com sua mamãe e seu papai, com Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a ama, depois com Kátienka e com todas as alegrias, tristezas e entusiasmos da infância, da adolescência e da mocidade. Porventura conheceu Caio o cheiro da pequena bola de couro listrado de que Vânia tanto gostava? Por acaso Caio beijava a mão da mãe como Vânia? Era para Caio que a seda do vestido da mãe fazia aquele frufru? Fora Caio quem protestara, na escola, por causa dos pastéis? Tinha Caio amado como Vânia? Seria Caio capaz de presidir, como ele uma audiência?
"Caio é de fato mortal e, portanto, é justo que morra, mas quanto a mim, o pequeno Vânia, Ivan Ilitch, com todos os meus sentimentos e minhas ideias, o caso é inteiramente outro. É impossível que eu tenha de morrer. Seria demasiado horrível.""



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A morte de Ivan Ilitch
Liev Tolstói
Tradução: Boris Schnaiderman
Editora 34