quarta-feira, 17 de maio de 2017

Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende: O olhar da empatia



Por Adriane Garcia

Nestes dias, estive em outros cantos. Mais especificamente em Olho d'Água, sertão de Pernambuco, lugar imaginário e tão real, criado por Maria Valéria Rezende. A edição de Outros cantos, primorosamente editada pela Alfaguara, traz,  já na capa, a aridez do sertão, assim como a algaroba, árvore frondosa do semi-árido brasileiro. Delicadamente, muito discretamente, um coração entre as folhas, feito fruto – sabemos que o que irrigaria a Terra é amor. Abaixo, areia, pó, terra seca esvoaçante como a dos desertos.

“Um bando de meninos me espreitava. Nos peitos, o teclado perfeito das costelas expostas; nas costas, saliências pontiagudas, duros cotos de asas cortadas antes mesmo de que vissem a luz por primeira vez. Nus vieram ao mundo e nele permaneciam, quase nus e inocentes, não por serem incapazes de fazer o mal, mas por serem ignorantes do mal que lhes podia ser feito. (p. 15)”

Não há como ler este romance e não se envolver e se emocionar. A narrativa é feita em linguagem primorosa e, ao mesmo tempo, simples. Maria Valéria Rezende escreve para se comunicar com o maior número possível de leitores. Sua comunicação é dom e o que ela tem a dizer nos deixa despertos para a realidade. Realidade de uma comunidade que se repete por tantos brasis, marcada por fatores históricos, sociais e culturais que a retêm na miséria material, latifúndio e a confirmação da máxima “o problema do Nordeste não é a seca, é a cerca”; realidade de nossa condição humana, tão independente de geografias.

A história se passa enquanto a personagem Maria está num ônibus de viagem, quarenta anos depois, voltando para o sertão. O lugarejo é Olho d'Água, local onde estivera para alfabetizar jovens e adultos, na época da ditadura militar brasileira, no programa MOBRAL. Nas lembranças de Maria, já idosa, o leitor acompanha Maria, a jovem revolucionária, sonhadora e crente no poder de mudança da palavra escrita e da leitura. Porém, o que Maria descobriria (e o leitor) é a força da linguagem oral, a força e a beleza do povo sertanejo. Maria, que fora para Olho D'Água ensinar, descobre que só poderia aprender com esse povo ágrafo.

Entre cenas marcantes, com grande poder de fixação na imaginação do leitor, Maria Valéria Rezende traz o vigor que este cenário rural alcançou, por exemplo, com Raquel de Queiroz, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Impossível, depois de ler Outros cantos, esquecer-se do tingimento das redes, dos quartos abarrotados pelos grandes teares, das conversas noturnas debaixo das algarobas, apenas sob a luz das estrelas, da primeira e única vez que o povo de Olho d'Água viu um cinematógrafo; dos penitentes mortificando a própria carne, sofrendo mais do que já sofrem, para que a chuva caia no dia de São José; das mães gastando sua única água para que os meninos fossem limpos no seu primeiro dia de escola. Impossível esquecer-se de Fátima e sua solidariedade absoluta, a solidariedade de quem aprendeu que não se vive sozinho em duras condições de sobrevivência.

Outros cantos desenha, na memória de sua personagem, um cruzamento de tempos e espaços, a protagonista fazendo comparações de seu cotidiano no sertão pernambucano com o cotidiano de outros cantos em que estivera: o deserto da Argélia, o México, Paris. O leitor vendo, pelos olhos desta autora, esses seres humanos e aquilo que temos de diferente e comum, para o bem e para o mal.

Chorei inúmeras vezes lendo este livro, chorei de tristeza por reconhecer a ambição humana, gerando dificuldades extremas para tantas pessoas, cujos sonhos se reduzem a conseguir viver apenas mais um dia; chorei de alegria por perceber o alcance que a palavra de Maria Valéria exerce na duração e após a leitura, chorei, sobretudo, pela beleza alcançada numa obra, sim, magistral. Quando fechei o livro sabia que chorar era um sintoma causado pelo instrumento, talvez principal, utilizado por sua autora: a empatia. Ao usar a empatia de forma tão natural e verdadeira, com recursos literários belíssimos, Maria Valéria Rezende desperta a empatia de seu leitor. Daí, levamos o livro em nós, saímos a olhar com outros olhos os outros cantos. Talvez, nunca mais passemos por aquele homem que mora debaixo do viaduto, na região Sudeste, exposto a toda discriminação e perigo, sem pensar que ele provavelmente abandonou Olho d'Água depois de tentar de tudo, depois de enterrar mais um filho subnutrido, deixando mulher e outros filhos, que eternamente o esperam.

Outros cantos não é um livro do qual dizemos “leia porque é muito bom”. Outros cantos é um livro que dizemos “leia porque é essencial, leia porque é necessário, leia porque é sobre política, sem ser, leia para conhecer o Brasil”. Se a personagem Maria acreditava na palavra escrita e lida como a sua missão em Olho d'Água, a autora Maria Valéria Rezende a continua, onde seu livro alcance. Que ele alcance muito mais.

 “Expliquei-me como pude. Não, menti, ou não menti, pois nem eu sabia ao certo, aquilo não era saudade de ninguém, não, e nem culpa do povo. Ao contrário, era o medo de ter de ir embora, o vereador que não resolvia nada, não trazia o contrato e o material prometidos e eu por isso esmorecia, já quase sem esperança de ser professora e poder ficar por muito tempo. “Você diz que de família só tem pouca gente, espalhada em outras terras e quer ficar aqui, que a gente é sua família escolhida. Ah, pois! Então aprenda que aqui o que mais se carece é de paciência, saber esperar. A gente vive esperando, a noite, o dia, a chuva, o rio correr de novo, esperando menino, esperando a safra, notícia, o caminhão do fio, o tempo das festas, visita de padre, tudo coisa que custa a chegar (...)”(p.123)

***
Outros cantos
Maria Valéria Rezende
Romance
Ed. Alfaguara
2016



terça-feira, 16 de maio de 2017

O mar não sofre coisa morta – O pesadelo humano na literatura de Leonardo Paiva.



Por Adriane Garcia

Que coisa feliz é quando um livro curto, com poucas páginas, é suficiente. Assim é O mar não sofre coisa morta, de Leonardo Paiva.

A edição caprichada da editora Moinhos traz uma capa que chama a atenção, um naufrágio, uma tempestade, o cinza engolindo o azul e um barco com pessoas que tentam sobreviver à sua tragédia.

O mar não sofre coisa morta é composto por nove contos, de tamanho médio.  Já no primeiro conto, Lourdes, o leitor poderá perceber a força da narração de Leonardo Paiva, que publica pela primeira vez.  A cena de Lourdes matando uma galinha e aguardando que os coelhos mortos, e devidamente limpos, cheguem para a refeição que preparará, mais que bem descrita, revela a crueza de uma linguagem atenta à palavra e à frase. O texto de Leonardo é preciso e cuidado. Interrompida pela notícia da morte de um familiar que é “persona non grata”, Lourdes precisa pausar seus afazeres para ir reconhecer-lhe o corpo. É isso, O mar não sofre coisa morta é um livro em que os personagens não têm tempo ou mesmo oportunidade de não seguir em frente, ainda que a frente seja mais crueldade, o mundo, sabemos, não sai da frente e eles vão.

No conto Véspera de Páscoa, mulheres que precisam lidar com a violência que lhes é imposta. Além da história curiosa, cujo cenário nos coloca num presídio de paredes brancas, em cima de uma colina, a condução do conto é uma delícia rítmica, o texto respira, enquanto nossa respiração fica tensa pela realidade surreal e tão próxima das “mulheres da vez”. Em O ciúme, Leonardo consegue mesmo nos surpreender quanto à voz narradora, o que universaliza o amor de forma comovente. Mas é em Afogados que ele nos faz chorar. Tão próximos, os meninos Iago e Ricardo atravessam a estrada e a adolescência; com muita sutileza, Leonardo Paiva sugere o amor homoerótico, tão naturalmente, que compreendemos a violência silenciosa do que para Iago é um interdito: ele não pode demonstrar o amor por outro menino, nem mesmo manifestar o que possa ser entendido como desejo; mas tudo é sugestão, Leonardo Paiva revela mesmo é uma amizade pura e profunda, que não poderia aceitar a morte.

Em Os primos, reforça-se uma característica curiosa da linguagem do autor. Em muitos contos, e também neste, as pessoas são, naturalmente (e não desde o princípio), no meio da narrativa, tomadas por coisas ou por suas partes; como numa fábula ao contrário, de repente, alguém é uma minhoca branca ou uma boca de batom, ou três crianças passam a ser os seis pés que pisam as pedras quentes. O mais interessante é que ele consegue tirar qualquer efeito de artificialismo que isso poderia ter.

Em O mar não sofre coisa morta, conto que dá nome ao livro, Leonardo traz a história de um pai cujo filho é hidrocéfalo e vítima da maldição que acomete geneticamente a família, “a linhagem de homens doentes, que, a partir da herança do bisavô, definhavam antes dos vinte anos como fossem plantas secas”. Uma espécie de escravidão, quando tudo tem que ser suportado e vivido, um pesadelo que faria até mesmo as águas do mar se retraírem.

Em O cavalo, sussurros e segredos numa noite agitada colocam um menino no centro de histórias que envolvem xenofobia e não poupam sua infância já irremediavelmente maculada. Em Brasília, conto que remete à história de tantos operários que deixaram suas famílias para a construção da capital, o leitor encontrará mistério e loucura. Em Jacarandá, um sequestro com tentativa de estupro e a reflexão sobre o que perdura na natureza humana.

O mar não sofre coisa morta é um livro bem construído, que delineia a vida no território da violência e dos enganos, das tragédias inevitáveis e das tragédias que, não satisfeitos, criamos; um livro cuja compaixão está justamente em não tê-la. Um trabalho de arte que, sendo-o, traz revelação, essa palavra de raiz ligada a desnudar, destapar, mostrar.

“Na sala fria seguiu o homem até alcançarem a mesa de aço e o pano branco estendido. O homem levou o pano branco da cabeça até o púbis liso do morto. O homem disse que esse é o Antônio Oliveira? Reconhece seu irmão?
Lourdes podia dizer que sim, mas talvez estivesse enganada. Podia dizer que ela era aquele corpo deitado.
Ela era aquele corpo deitado. Reconheceu-se no rosto de Antônio, embora fosse bonito e jovem. Os cabelos tão compridos, era desejo de Lourdes ter cabelos longos, mas sempre tivera aqueles cabelos curtos, que não tinham força para crescer. Antônio tinha peitos bonitos, grandes, de bicos escuros como os dos peitos secos de Lourdes. Não tinha pelo qualquer naquele corpo sem cor. Abaixo os furos na barriga, furos tão grandes que era possível enfiar em um deles o punho fechado.
Ela era aquele homem deitado.”

***
O mar não sofre coisa morta
Leonardo Paiva
Editora Moinhos

2016

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Não, a afirmação de Bruna Mitrano



Por Adriane Garcia


Não comecei a ler o livro Não, de Bruna Mitrano (ed. Patuá, 2016) pelo prefácio sobre poesia e política, feito pela poeta e estudiosa Nina Rizzi, que é, por si só, uma aula. Sempre deixo por último os prefácios, apresentações, orelhas. Confesso que também não foi o texto escrito o primeiro que li, foram as imagens, as belíssimas e contundentes ilustrações que Bruna Mitrano criou para Não. Das imagens, você já pode ter uma ideia do que virá.

A edição do livro não se trai, a capa é preta, a cor estigma da negação em nosso país; negação de direitos básicos, de políticas públicas, negação das ações de inserção necessárias, quando o processo histórico se deu sobre expulsões, exclusão, assassinato, escravidão, sempre em prol de uma classe dominante branca, macha, insensível, racista, sem empatia e (serei redundante) de péssimo caráter. As letras vermelhas, no advérbio saltando no escuro, não deixam de remeter imediatamente à violência.

Os poemas de Bruna Mitrano trazem ao mundo audível (ainda que este mundo seja minúsculo) o mundo mais que populoso dos que nada têm, dos marginalizados, dos moradores pobres, brancos ou negros, das periferias e das ruas, das crianças brasileiras abandonadas, das mães abandonadas, das mulheres, vítimas constantes e fatais do machismo. Com grande parte dos poemas orbitando em torno da temática do aborto, Bruna acaba por retratar uma realidade acontecida e não o sonho delirante dos que querem legislar o corpo dos outros, mais especificamente das outras. Sem apologia a isto ou aquilo, Bruna conta, Bruna descreve, Bruna faz sentir. Preto no branco.

Se preto é, então, estigma, Bruna traz à luz também o fato conhecido e quantas vezes combatido (pois a verdade transforma): o de que preto é também a cor da resistência neste país. Resistência que começa com quatro milhões e meio de pessoas sequestradas de seu continente para compor um dos maiores êxodos forçados da história da humanidade. É no Brasil que essa diáspora produzirá efeitos que o Estado não foi (e não parece interessado) capaz de sanar. É também no Brasil que essas pessoas se reinventaram, com a força de suas culturas matrizes e a capacidade de absorver outras, sobrevivendo às piores condições possíveis. Mas também não é uma apologia à pobreza ou ao sofrimento o livro de Bruna. É um grito por justiça social sem ser em nada panfletário. É poesia com lirismo, ritmo, imagens, polissemia. É poesia que se recusa a ser somente poesia bonita, é poesia com o pé no lugar onde se vive. Se uma das funções da poesia é dar a ver, Bruna Mitrano a cumpre, retirando seu interior e entorno da invisibilidade.

Ao mesmo tempo em que no livro é forte a presença da problemática social, a voz narradora é intimista, chama para um ponto de vista, é subjetiva também, mostra a dor desta digestão que é, dentro, o mundo de fora. Sexo, fome, solidão, precariedade do corpo, degeneração da carne, asfixia diante do mundo, loucura e desejo são as forças cotidianamente presentes na luta pela sobrevivência exposta em Não.

Ao dar voz a questões como aborto e machismo, Bruna soma à nossa literatura contemporânea o ponto de vista das mulheres sobre o mundo em que habitam e atuam, onde falam sobre seu próprio corpo e sobre o modo como sentem as relações com o outro, o macho, inclusive. Juntamente com tantas outras escritoras que hoje vem transformando a literatura brasileira, cuja hegemonia masculina é inegável, Bruna registra a existência real de mulheres, de dentro, da experiência da opressão e do trauma.

É preciso matar para se libertar. Eis uma frase perigosa que podemos formular após ler Não. Uma frase metafórica ou literal. O que mataremos? O que lutaremos para que viva? Bruna vem nos dizer das escolhas que não nos são possíveis, quando nos tiram tudo, e faz isso na contramão. Ao fazê-lo, ela escolhe, como se fosse possível. E então passa a ser. Neste momento reencontramos Nina Rizzi: “ O gesto poético já é, e desde sempre, político. A poesia é uma insólita. Seu sentido se faz outro, reclama um outro e é arma contra a barbárie. Bruna Mitrano não nos deixa esquecer a máxima barthesiana que nos diz que a poesia é prática da sutileza num mundo bárbaro; não nos deixa esquecer a máxima nietzschiana: se o tempo é sombrio, a poeta pensa contra o seu tempo em nome do tempo por vir.”

De dentro da barbárie e de um corpo de mulher, no Brasil, ela faz poesia.

puta que pari um bicho morto
risco indócil na coxa
barulho oco dos coágulos esbofeteando a água da privada
estilhaços imagens
o enquadramento impreciso
aparar as arestas até triturar os ossos do rosto
as unhas perfuram lentas a boca grande calada
é preciso fugir pelas beiradas
sem alarde.”

***

Não
Poesia
Bruna Mitrano
Editora Patuá
2016




quarta-feira, 19 de abril de 2017

Eis o mundo de fora – O mundo de dentro, de Adrienne Myrtes



Não se entra no reino da morte vestido. Conheci as mãos de Raul, a saliva macia, sua boca aberta, engolindo-me pedaços e líquidos. Acordamos o dia no final da noite gozando o fato de sermos machos. Fomos homem um para o outro.” (Fala de Luis, p. 25)

Com o pouco tempo de que disponho para leituras (para a vida, realmente – visto que a Engrenagem nos assalta à mão armada, cotidianamente), li o romance de Adrienne Myrtes, Eis o mundo de fora, pelo Ateliê Editorial. Em três dias, ou seja, a leitura é muito fluida e instiga a continuar. Também, a autora conhece a sedutora arte dos bons primeiros parágrafos.

Com dois protagonistas que se revezam, Irene e Luis, Adrienne Myrtes, desde a primeira página – que já é o ápice de um drama – nos sequestra: estamos diante de uma tentativa de suicídio e não vamos mais parar. A forma absolutamente natural e verossímil não antagoniza com a linguagem literária tão bem cuidada. Excelente literatura é a que, sendo, nos faz esquecer de que estamos lendo literatura. Irene e Luis nos levam até suas vidas. Seus mundos de dentro atropelados pelo mundo de fora. O mundo de fora, o alimento de suas digestões e digressões.

Irene é a mulher que se tornou fria com relação ao amor, a que repele o amor conscientemente: “o que eu sabia é que me sentia sem corrimão, sem prumo, em resumo, que aquilo não era bom. Até doía. Pior, era um inferno. E aquilo era o amor. O amor cantado e decantado pela natureza humana. Amar para quê? Para dar chance a meu coração de me enforcar?”. Luis é o único amigo de Irene, ator, entre amores e michês, um homem que se recusa a sair da adolescência amorosa, e que vive a vida na intensidade dos cortes. Eros e Thanatos acompanham as personagens, Dionísio dá as caras e algumas cartas. Sim, é um livro sobre vida e morte, sobre amor e morte e também sobre esse amor puro e raro chamado amizade.

No meio da depressão de Luis, que mora com Irene, um telefonema faz com que ela tenha que voltar à cidade de sua infância. Consequentemente, rever a avó, Dona Auxiliadora, Tia Lurdinha, Léa, a mãe que nunca é chamada de mãe e Moacyr, o primeiro homem na vida sexual e amorosa de Irene. Rever a própria infância e a origem das primeiras despedidas. Juntos, ela e Luis encontrarão, nessa visita de uma semana, cada um a seu modo, motivos para novas reflexões e amadurecimentos. Irene terá que enfrentar tudo o que deixou para trás, fatos que a autora soube dosar com maestria, revelando-nos, aos poucos, o passado de sua personagem. Luis encontrará o distanciamento suficiente, e desejado, para se reencontrar e tentar esquecer Raul, ainda que seja para constatar suas repetições: “Na verdade gostaria de ser salvo pela distância. Ficar afastado da vida, receber uma suspensão. Não estar com algumas pessoas, não precisar contar histórias, enredar fatos, encontrar palavras para dar explicações. Explicações que não tenho nem para mim.”

Em Eis o mundo de fora, a dor assume uma questão central , tanto a física quanto a psicológica. Adrienne Myrtes, trabalha, por meio de suas personagens, a consciência de que somente a dor nos acorda para o que somos (iguais) e, ao mesmo tempo, um desejo fracassado de torpor, seja pelo excesso de verdade ou pelo excesso dos sentidos, para não senti-la tanto, pois o que somos não é notícia agradável. Nas palavras de Irene, “Estar vivo é estar doente, mas não sei lidar com a dependência gerada por isso. Odeio lamentação, lamúria, odeio com a mesma intensidade a falta de lamentação, o sofrimento digno, abnegado. Mártir. Alguém que se entrega aos vermes. Passivamente. A dignidade existe em olhar na cara da dor e rosnar”. A sinceridade das palavras dos dois personagens conversa com a nossa sinceridade, assusta-nos, como finalmente o faria um espelho verdadeiro. A autora não sopra a ferida, ela a escancara, até que possamos ver um coração que pulsa, não importa até quando, que, enquanto pulsa, flerta com a morte, mas quer pulsar. A morte é o evento marcado, Irene sabe que é a única coisa que sabemos. E, se Irene encara a morte de frente, Luiz encara a vida: “Descobri que prefiro ser atacado pela morte sem aviso, pelas costas.”

Eis o mundo de fora é também pontuado por paradoxos, ideias que Adrienne Myrtes subverte: a morte não é o desconhecido; a vida é que, sem controle algum, vem, mas não nos diz a que veio. A morte encerra a dor, mas sabê-la não é suficiente para executá-la. Imperativo é viver. Daí a admiração de Irene por Luis, ciente de que ele, sim, enfrenta fera de maior perigo. Luis, por seu lado, encontra em Irene o esteio de lucidez que o salva de tanta vida.

Aqui e ali, muito pontuais, pitadas de um humor inteligente e ácido, como no início do capítulo XXV: “Odeio gente gentil. Gentileza não é coisa natural, é sem princípios. Gentileza é invenção de vendedor.”, ou quando Luis é apresentado a Moacyr: “Essa era Irene tentando me convencer a me comportar como um criado velho, surdo-mudo numa peça renascentista. Fiquei quieto porque o pretenso amigo era um tesão e a vida é vaudeville.”.
As ilustrações, também feitas pela autora, tornam o livro um conjunto íntimo e rico. O romance traz trechos e mais trechos de grande beleza e reflexão. Copio um, entre os inúmeros que marquei (e que marcaram minha leitura).

A criança é a maior prova de que o homem não nasce bom. O homem apenas nasce. Todo o resto é tecido que fabricamos para proteger a pele. Para brincar de esconde-esconde.
Passei a infância me escondendo de minha maldade interior, sentindo pena das lagartixas mortas em favor das experiências necessárias ao exercício de minha curiosidade. A investigação científica era minha forma de brincar de adulto e eu precisava me sentir próxima as pessoas que me rodeavam. A morte fazia-se necessária para as descobertas, mas ela vinha costurada à compunção. A imagem do bicho morto, das vísceras expostas, da gordura do sangue, provocava certo sofrimento em mim. O sentimento corria em círculos, ao redor da irreversibilidade do feito. Uma vez morto, morto até o fim. Durante alguns minutos eu me arrependia e havia verdade nisso, cheguei ao ponto de fazer enterro de alguns animais depois de dissecados, arrumando-os em pequenas caixas cheias de flores. Acendia velas e fazia orações pela metade, imitando minha avó diante de seus santos. Mas isso não me impedia de matar outro quando precisava fazer outra experiência. Eu era criança e criança não tem alma.” (p. 39)

O mundo de fora pode ser também um sonho, sair de si, estar liberto deste jogo chamado vida, onde não há manual ou sentido e onde só nos resta caminhar: "A vida é a possibilidade que tenho no momento, o que me resta. Por isso o que tenho a fazer é me levantar da cama e começar o meu dia." 

Um livro excelente, de uma autora que merece ser lida, porque tem muito a dizer e sabe como.

***
Eis o mundo de fora
Adrienne Myrtes
Ateliê Editorial
2011


sábado, 1 de abril de 2017

O exercício da distração – De Kátia Borges



Por Adriane Garcia

O livro que me acompanhou durante esta semana foi O exercício da distração, da poeta Kátia Borges (ed. Penalux, 2017). Li-o duas vezes, para melhor ficar distraída. A distração que Kátia oferece é aquela que nos faz sair do mundo ordinário. Não à toa, a capa traz acrobatas em equilíbrio no topo do Empire State, uma fotografia de 1934. Mas que diabos fazem três pessoas numa performance arriscada e inútil? Que diabos faz Kátia, construindo um livro de poemas (antes: lançando um olhar para a poesia das coisas), recusando-se a ser simples engrenagem neste sistema que apenas quer nos consumir o tempo de vida, apertando seus parafusos?

O exercício da distração é uma resposta rebelde. Uma resposta rebelde silenciosa, visto que a poesia é capaz de se comunicar no silêncio do outro. É rebelde porque se insere no mundo do cansaço, e teima: “Dizer do medo, a coragem/com a qual dançamos a vida/sem descalçar os sapatos”.

Dividido em três partes, Como se fosse o órgão vivo, Fugas extraordinárias e As pequenas vilanias da cidade, o livro se comunica o tempo todo com seu título. A distração, a inadaptação, o mundo como um não-lugar para os sensíveis, para a sensibilidade. A máquina do capital a massacrar as pessoas, explorá-las, matá-las, cotidianamente, enquanto buscam a sobrevivência e o amor.
O amor, em O exercício da distração, é a “caça inútil”, a busca difícil, mas a busca da qual não se pode fugir, a busca necessária. O amor “arrasta os astros/pros lugares certos” e dá sentido ao que não tem. É o grande consolo, é a mão próxima, a possibilidade da dor compartilhada: “estou cansada de sentir este aperto no peito//amo esta mulher que diz que passa”. Ao mesmo tempo, não há ingenuidades, há uma maturidade nos versos de Katia Borges que não permite ilusões. A fantasia é proposital, a fantasia é um mecanismo de quem escolheu dar conta do mundo pelo seu avesso, mas com total consciência do processo. Este poema, que me lembrou dos momentos finais de Lorca, dá a dimensão do conflito tão presente neste trabalho:

Teu movimento

Antes que te chame
o pelotão de fuizilamento
repara o pássaro
apara o dia.

Há um olhar que se derrama
lento sobre a vigia
e graciosidade no andar
do carcereiro.

Antes, sim, que chamem
o teu nome, anota
num papel ou na parede
certo verso de cimento.

Na argamassa firme
teu movimento.

A distração é o exercício da liberdade, exercício cerceado, que só pode acontecer como desobediência, estranheza ou mesmo loucura, como a poesia. Já nos títulos de alguns poemas, a poeta brinca riscando palavras: Anotações para um poema sobre pássaros (sapos) flores. É assim, nas brechas, que se vai criando possibilidades de escolha para se inventar a própria autonomia. A poeta anda presentemente em sua cidade, indaga o mistério das perdas e sabe da resignação quanto a essas fugas, observa o mundo para além do que ele quer mostrar – falávamos sobre a distração como ato de rebeldia, a poesia como recusa à cegueira imposta.

Os poemas são de grande musicalidade, e há imagens imperdíveis, como em Hashi: “tão tristes os três tigres/do I Ching/espreitam o amor, a caça inútil// seria bom se descansassem/o peso das pernas,/seria bom se repousassem/o rosto nas patas”.

Por fim, O exercício da distração é um livro que traz paradoxos. Se por um lado, a distração parece que aliena, Kátia vem mostrar que, ao contrário, a distração é o que nos mantém vivos e acordados. E, obviamente, ela não está falando da distração permitida, da distração de massa, que quer fechar os olhos, banalizar até o ponto de não mais se poder perceber. A distração de que Kátia fala é aquela que nos abre ao desejo de molhar a planta que avistamos na varanda do vizinho, tão próxima ao nosso apartamento, afinal

“A vida é esse verde entre nós.

Talvez os biólogos nos expliquem
a fluidez do amor, a essa altura.
Serei melhor se lançar água
e, dessa distância que penso segura,
salvar uma begônia.”

Um livro lindíssimo. Para ler e reler.

*
O exercício da distração
Kátia Borges
Editora Penalux
2017

sábado, 25 de março de 2017

Um dia toparei comigo - o fio de Ariadne de Paula Fábrio


Achará, à primeira vista, a leitora, o leitor, que lerá um livro sobre a viagem de duas mulheres, companheiras, a Madri.  Que esta viagem poderá ser também outras que o livro conta, ao Rio de Janeiro, Teresópolis, ou à França, Paris. Poderá achar, ainda, que será encontrar Buenos Aires, Roma e tantos outros lugares aos quais a vida de Isabel, a narradora, e Virgínia nos levam. Será somente à primeira vista.

Em Um dia toparei comigo, de Paula Fábrio, a viagem que realmente faremos junto de sua protagonista será ao labirinto, forma e tema se encontrando, pois que o labirinto é tanto a falta de linearidade em que a narrativa se desenvolve quanto o lugar sem mapa, sem paradeiro, sem avisos prévios em que a vida nos lança, logo que nascemos.

Nas palavras de Isabel, Virgínia é a pessoa com quem compartilha a fobia de viver. A narradora, tendo passado recentemente pela morte do pai, acometido pelo câncer, viaja com a companheira – que vive apenas um mês por ano, o mês de férias – e encontra, na Espanha, outros amigos. O que parecia ser uma pausa do assunto mal acabado, a morte, deixado no país de origem, retorna, pois o tio de Luís, seu Ramires, também está morrendo. Desencadeada pela beleza e o alumbramento das novas paisagens, a memória aciona as lembranças dos fatos. Passado e presente se cruzam, todo o tempo. Perceber esses personagens, justamente no vai e vem da lembrança de Isabel, é ir compondo o livro juntamente com a autora. Ela vai dando à leitora, ao leitor, a chance desse exercício de imaginação: aos poucos, tudo fará sentido, porque nada tem.

É da vida sem sentido, é de dar sentido à vida, é de tentar encontrar as saídas possíveis para nascer e morrer, entre um ato e outro, que o livro de Paula Fábrio nos fala. Fala de luta, a diária – que não parece um grande feito, mas é – e resignação. Os personagens de Um dia toparei comigo são tão frágeis quanto eu e você, guardam fracassos mesmo já tendo estado “no maior do auge”. O tom é de uma melancolia profunda e bela, que a obra de arte alcança. Sem piedade alguma, a autora revela nosso sentimento tão constante de estarmos perdidos, estrangeiros em qualquer terra e, principalmente, estrangeiros dentro de nós mesmos. O Minotauro deste labirinto é o espelho.

No fim da leitura, eu que, por demais, já gostava do título, passei a gostar mais ainda. “Um dia toparei comigo” é uma esperança. E no livro de Paula Fábrio, com seu fio de Ariadne nos conduzindo, é uma realização.

“Não havia o que fazer nas próximas horas, dias, e também e também não importavam os ponteiros do relógio. Eles marcam a duração da alegria e só. Até mesmo o túnel do tempo não seria vantagem, caso não saibamos tim-tim por tim-tim o que fazer da vida. Presumo, toda viagem é um pouco à deriva e, enquanto não nos conformamos em fruí-la sem nos debater, não poderemos nem ao menos contar uma boa história aos próximos da fila.
Quando não há o que fazer, caminha-se.”

***
Romance/ Um dia toparei comigo/Paula Fábrio/Editora Foz, 2015


quinta-feira, 16 de março de 2017

As mãos feridas sob luvas de aço – Jogo de facas, de Thais Guimarães



Por Adriane Garcia

Você abre o livro e encontra uma mulher com uma faca afiada em uma das mãos. Com a outra ela ajeita o cabelo. Em seguida, pega a pedra de amolar. Essa a imagem que dá as boas vindas no livro Jogo de Facas (ed. Quixote, 2016), de Thais Guimarães. Respire, não há flores na recepção, Thais não quer enganar. A sala em que você vai entrar é branca, das paredes ao teto, há um quê de assepsia, é dessa assepsia também que Thais quer nos falar. Em contraste, na maca de aço, a vida será dissecada. É a própria poeta que se dá em holocausto. Jogo de facas procura o sangue que corre nas veias, procura algo em que se sujar, quer achar as vísceras e já encontrou. Nada salva e jamais faz sentido.

Num projeto de inteligência e muita sensibilidade, esse livro, orgânico, faz a forma encontrar o tema. Os versos são – o próprio título do livro já revela – da família cabralina; sem excessos, o corte se faz com exatidão, ritmo e essência.

Dividido em quatro partes, planos de corte, linhas de incisão, provas de corte e pontos de sutura, os poemas se desenvolvem sem piedade alguma com a vida (o caçador aqui se torna a caça), por consequência, com o leitor. Não importando se a metáfora nos leva ao açougue ou ao hospital, se as mãos são de assassinos ou legistas, as facas são o instrumento necessário para a sobrevivência, a escolha é matar ou morrer. Ter uma faca, Thais deixa claro, é estar de posse da maturidade, é ter crescido, é calcular. A poeta disseca com a firmeza de quem não quer mais se distrair. A distração pode ser fatal. Crescer é ter perdido. E dói.

Dessa dor, a luta diária, a batalha, Thais retira as metáforas da guerra, dos instrumentos perfurantes, tesoura, navalha, gume. Por incrível que pareça, há delicadeza nos versos, ao mesmo tempo que uma violência de punhos cerrados, de golpes. A salvação, o amor, aparece, num primeiro momento, como desejo, sonho e sexo; em seguida, como mais uma violência oferecida pela condição humana, mais uma arma para nos vencer. As facas cortam, o amor, navalha, rasga na fragilidade da carne, deixando as entranhas expostas. Aos poucos, os versos revelam nosso corpo, nossa casa frágil; se quiser ir mais fundo, será preciso calçar luvas de aço.

Jogo de facas, porque jogo, revela-se, prossegue, desmentindo a própria ideia inicial, a de cálculo, a de incisão suficiente, a de mão que não treme; a vida não é ciência e, apesar do cálculo, não há controle. A prova disso é que Jogo de facas é também um livro que mostra uma tristeza profunda, dessas que somente poetas podem amplificar.

Rasgados, da cabeça aos pés, resta-nos o reconhecimento de tal ferida, a resignação e a constatação diante do espelho. Mais esta faca: o tempo.
grau de visão

envelhecemos
e não há forma amena
para contar tempo
o que passou

a imagem devolvida
pelo espelho
diz tudo
sem palavras

os olhos
já não veem
(sem óculos)
o que não precisa ser visto

Em um trabalho de muitas imagens, a do corpo aberto pela faca é o retrato resumo da nossa fatalidade, “um pássaro se debate/contra si mesmo/ na janela”. Antes do sossego que só a morte pode oferecer, o pesadelo da memória: “vento que incomoda”.

Em Jogo de facas a poesia demonstra beleza, crueldade e controle. A poeta se vinga do acaso. A vida não se completa, a plenitude de sua realização não se dá, a vida é o sono porque não se faz inteira ou consciente. O desespero é silencioso e cansado, como devem ser as cirurgias de risco. Não por acaso, dois grandes gritos no livro são os poemas Sylvia Plath, “na pele escura da noite/riscar a alegria/ – fósforo – / na fátua palavra/ meteoro”, e Alfonsina Storni, “na noite constante/ o álcool perde o lugar// em meus afogamentos/ hei de beber o mar” , duas escritoras que cometeram suicídio.

Por fim, largar a faca e cozer. Resta a sutura por passarmos a vida esperando o que não é factível. Thais depõe a faca sobre a mesa, senta-se e municia as agulhas:
o corpo que me prepara/ que menos me fere/ é aquele onde me deito:/ firme cama de ferro/fino leito de pregos”.

Um livro valioso. Dos que se ficam a sós com o leitor.





sábado, 25 de fevereiro de 2017

Clarissa Macedo e a visão dos abismos



Por Adriane Garcia

        Bastou-me pouco tempo da leitura, menos de um terço do livro, para sentir a força da poesia de Clarissa Macedo em “na pata do cavalo há sete abismos”. O título, por si só, com este misto de sortilégio e enigma, lembrava o aviso de bruxas que eu poderia ter ouvido na infância.
         Não é uma poesia difícil, ininteligível ou hermética, mas também não é uma poesia fácil, se o leitor é do tipo que quer sorver verdadeiramente o encantamento das palavras. Leia os poemas de “na pata do cavalo há sete abismos” uma, duas, três vezes. Verá que algo se abre, verá o que é ficar na beira de seus precipícios.
        Pois é isso, Clarissa está a nos falar da profundidade, de tempo, de velhice, de morte, de mundos que não temos mais; de inadequação, de incompletude, de dúvidas, fracassos, de desterramentos. É poesia para quem não teme tonturas. Sete, seu número cabalístico, não lhe salvará, nada lhe salvará; Clarissa está para dizer que somos seres procurando sentido, mas você se sentirá acompanhado. Suas palavras são de penetração e é necessário um leitor disposto às lanças. Sim, algumas vezes a autora o fará sob o lirismo, mas ainda assim, esse lirismo tem o movimento das crinas dos cavalos, enquanto é quase tempestade o que venta.
        A maturidade reconhece a dor e sabe o que fazer com ela. Clarissa é daquelas poetas que corroboram o meu pensamento de que todo poeta é antigo. Não luta contra, luta com. Sua poesia ditada de mistérios e de experiências que parecem advir de uma ancestralidade, comunga segredos tão necessários, aquelas leituras das reflexões mais silenciosas, feitas de habitar, como neste excerto, de Arrebatamento:

“O mundo é uma hora
mal desenhada e em tudo
esconde-se o infinito.”

Ou neste, de Jornada:

“surge a vida
mil vezes alucinada

parindo números
de mortos
desde ontem,
desde a era passada.”

        Sua musicalidade sendo belíssima, recorda esta nossa tradição mais bem realizada com Cecília Meireles. Seus versos limpos trazem o domínio diante do que fala e da forma com que escolhe falar. Sua poesia não nos põe obstáculos, mas nos pede desobstruídos, nos pede prontos para uma visão. Os elementos da natureza aparecem de forma insistente, principalmente a terra, como símbolo de lugar onde se estabelece a existência, onde se pisa, para onde se é sugado, como sangue, como matéria. Do pó ao pó, nas palavras da poeta: “cada passo é uma trapaça”. É interessante notar que a força invocada desde o título até as muitas reincidências da palavra terra, de seu elemental, é a força telúrica. Assim, pata do cavalo invoca solo, solo invoca abismo, abismo invoca espírito. Mas ela também tem a força para receber as alegrias, a poesia é também o júbilo da imaginação e do prazer:

“A chuva interfere nas ilhas
como quem deita de luz acesa.”

“Pois os magos, como os mais curiosos pesquisadores da natureza, fazem uso dessas coisas que são preparadas por ela, aplicando coisas ativas às passivas, produzindo, às vezes, efeitos antes do tempo ordenado pela natureza, que as pessoas comuns pensam se tratar de milagres aquilo que, de fato, são obras naturais, em que a prevenção do tempo apenas fica no meio, como se alguém pudesse brotar rosas em março; e amadurecer as uvas, ou colher feijões, ou desenvolver a salsa em uma planta perfeita em questão de poucas horas; mais ainda, provocar coisas maiores, como nuvens, chuvas, trovões e animais de diferentes tipos, e muitas transmutações de coisas (…)”.

Henrique Cornélio Agrippa de Netteshein, em Da Magia Natural

“Embora o poema não seja feitiço nem conjuro, à maneira de ensalmos e sortilégios o poeta desperta as forças secretas do idioma.”

Octavio Paz, em O arco e a Lira

        Haveria tantos versos de Clarissa, neste livro, para ilustrar o que o mago e o poeta disseram – acho que Clarissa faz nascer rosas em março, ou em todo mês, faz ver também seus espinhos mas ficarei com a força inequívoca destes seus versos:

“A alma relincha
na estrebaria.”

***

Clarissa Macedo, natural de Salvador (BA), doutoranda em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora, pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo mundo afora (além do próprio Brasil, Colômbia, Peru, Cuba). Está presente em diversas coletâneas, revistas e sites. É autora de O trem vermelho que partiu das cinzas e de Na pata do cavalo há sete abismos (7Letras Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia), ambos de 2014, este último, recentemente reeditado pela editora Penalux.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A força gravitacional de líria porto – cadela prateada



Por Adriane Garcia


Estive às voltas com o livro “cadela prateada”, de líria porto (ela gosta assim, minúscula) por cerca de uma semana. Um livro de poesia que, sem dúvida, se leria de uma só vez, em algumas horas, pois de leitura extremamente fluida. Mas isso faria um leitor que não tivesse, como eu, uma relação quase gastronômica com palavras. líria porto oferece um banquete precioso, onde saber e sabor se misturam, e feliz é aquele que, privilegiado, pode sorver nuances, sustos de mudanças, inversões, duplos e triplos sentidos. Por isso li três vezes cada poema.

A coletânea é temática e aborda de criativas maneiras este nosso satélite, habitante do céu e do imaginário: a Lua. A cadela prateada uiva e faz uivar. É mulher, tem luz própria, é corporificada, amamenta, é força, é dionisíaca, erótica e vive de um amor complicado: o Sol.

De forma absolutamente ritmada e, portanto, musical, passear pelos poemas de “cadela prateada” é ouvir música. Brinco (de forma séria) que quando algum poeta tem problema de ritmo em seus poemas eu lhe recomendo, de imediato, ler Cecília Meireles. Faço-o agora também com líria porto.

A linguagem é atualizadíssima, bem humorada, sem deixar de falar da tragicidade da vida; as metáforas, riquíssimas. líria porto é uma poeta que consegue fazer uma poesia sensível, comunicante, filosófica e, ao mesmo tempo, falar de sentimentos ou mesmo de política. Em “cadela prateada” nada é panfletário, nada é ingênuo, nada é forçado, nada é gratuitamente confessional.

Da cosmogonia própria, elaborada em belíssima narrativa à solidão diária e noturna, os temas vão-se dando, página a página, de forma surpreendente, leve, mas com força de atração natural.

Fim de livro, penúltimo poema especificamente, eu, que ria e me deliciava, chorei. Ali estavam também dois temas que a poeta desenvolve com maestria: a morte e o tempo. Eram minhas marés internas sendo movimentadas. Um livro que coloca a lua na palma da mão.


pálpebras

de manhã abro a janela
e deixo o sol penetrar
no corpo da casa

à noite fecho-a de novo
(estrelas ficam lá fora)
eu durmo dentro
do ovo

na lua cheia
não tenho regra


biografia

na guerra foi concebida
ficou-lhe esta ferida
rasgo no espírito

quando chegou outubro
envolta num manto rubro
quis ser feliz

à meia-noite e meia
na hora da lua cheia
rompeu o escuro

assim nasceu uma bruxa
alma cor de puxa-puxa
nome de flor-de-lis


adiamentos

a lua esperava o sol
redonda um talismã
quando ela se despiu
ficou de manhã

o sol lambia a lua
o meio o lado as beiras
lamberia a face oculta
a nuvem veio

só amanhã


poder

ora tímida ora escandalosa
essa lua bipolar puxa e empurra o mar
com os olhos


à amiga rina bogliolo

estejas onde estiveres
ao contemplares a lua
(dela não arredo os olhos)
poderei ver-te

dir-me-ás
é pouco

dir-te-ei
nem tanto
aos loucos
basta uma gota
e o mar virá


minguante

lua
o rato roeu
tua cara de hóstia

caíram uns farelos
que o gato lambeu
com os olhos

cão pobre vadio
uivou no vazio
tristeza de morte

a vida é o quê
senão o aguardo
da hora

***

Cadela prateada
líria porto
Editora Penalux
2016