segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Receitas de como se tornar um bom escritor – de Linaldo Guedes




Por Adriane Garcia

Tendo lido alguns romances ótimos durante a semana, resolvi descansar um pouco do gênero e peguei um livro que andava ocioso pela casa. A princípio, não dei atenção. O título me repelia um pouco, “Receitas de como se tornar um bom escritor” – lembrava algo da autoajuda, e ainda parecia partir do pressuposto de que alguém, algum iluminado, poderia ensinar isso. A própria edição (da Chiado Editora) não se mostrava muito atrativa, de maneira que abri o livro a esmo, sem gostar do título, sem gostar da capa, sem gostar do papel, mas de antemão sabendo que seu autor, Linaldo Guedes, era, pela qualidade de tantos trabalhos anteriores e militância na literatura, merecedor de atenção.

Grata surpresa: Receitas de como se tornar um bom escritor é uma coletânea reflexiva, que reúne artigos, palestras e crônicas publicadas na imprensa, seja impressa ou virtual, por Linaldo Guedes. Neles, Linaldo lança seu ponto de vista sobre a literatura, o meio literário, os livros, os autores e as mudanças ocorridas nos modos de publicação e recepção das obras literárias a partir do advento da internet e mesmo das redes sociais.

O próprio artigo cujo título dá nome ao livro nada tem a ver com aulas ou oficinas; é, na verdade, uma provocação do autor, que critica os modos extraliterários de se tornar um “bom escritor”, concluindo que um escritor cuja fama seja a de “bom escritor” não necessariamente o é, já que muitas vezes esse julgamento depende da circulação que faz entre aqueles que detêm o poder midiático ou alguma influência entre os que controlam o mercado editorial.

Na verdade, Receitas de como se tornar um bom escritor poderia se chamar Receitas de como se tornar um bom leitor. Linaldo fala sobre Fernando Pessoa, Padre Antônio Vieira, João Cabral de Melo Neto, Paulo Leminski, Augusto dos Anjos, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Ariano Suassuna, Sérgio de Castro Pinto, entre outros. Claro que eu senti falta, no livro, de artigo que falasse especificamente de alguma mulher escritora. Isso é algo para o qual vamos nos atentando cada vez mais hoje.

Há reflexões sobre prosa e poesia. O artigo sobre Augusto dos Anjos, por exemplo, Um poeta acima de qualquer escola, é uma delícia. O livro é um diálogo com o leitor, um guia de leituras também, com sugestões excelentes. No fim das contas, o que Linaldo, apaixonado e profícuo leitor, está dizendo mesmo é: leia, leia muito, pois se isso não garante (e não garante) que se será um bom escritor, a falta de leitura muito menos.

Caso algumas declarações de Receitas de como se tornar um bom escritor estivessem escritas em posts do Facebook, certamente gerariam polêmicas, animosidades e brigas, onde todos falariam e ninguém ouviria ninguém. Essa é a grande vantagem do livro; no livro ainda é possível ouvir, discordar, concordar, mediar internamente e considerar as divergências. Receitas de como se tornar um bom escritor é um livro ótimo, uma conversa concentrada e inteligente nesses tempos de louvor ao eco, ao raso e ao obscuro.

Os poetas não leem os poetas?

Pode até parecer contraditório o que está escrito acima, no título deste artigo. Mas a provocação de Eduardo Lacerda, jovem editor da Patuá e poeta, em entrevista a este jornalista, vai por aí. Lacerda diz com todas as letras: ‘Se os autores de poesia também fossem leitores de poesia, então poesia não daria prejuízo’. E diz mais: ‘O desejo de publicação – publicação em qualquer lugar, com qualquer qualidade – é muito maior do que o desejo de se estabelecer um diálogo com outros escritores e com a própria editora. É muito maior o desejo de publicar do que o desejo de ler. E eu acho estranho’”.
(p. 37)

***
Receitas de como se tornar um bom escritor
Linaldo Guedes
Ed. Chiado
2015


sábado, 11 de novembro de 2017

Aqui, no coração do inferno, de Micheliny Verunschk


Por Adriane Garcia

Sempre que gosto bastante de um livro, procuro escrever sobre ele. Primeiro para deixar um registro para mim, depois, porque minha leitura pode despertar interesse pelo livro em algum outro (onde estará?) leitor.

Li o livro Aqui, no coração do inferno (ed. Patuá, 2016), de Micheliny Verunschk, durante dois dias desta semana. O livro é envolvente, tem fluidez e o que mais gostei: tem uma tensão daquelas em que a gente enquanto lê sabe que está meio refém da autora.

Tudo começa quando o delegado da cidade, pai de uma menina de 15 anos, a narradora (cujo nome não falarei, já que é uma descoberta essencial para um dos prazeres dessa leitura), traz um garoto de 14 anos, acusado de vários assassinatos, para ficar preso provisoriamente na cozinha de sua própria casa. A narradora, a madrasta e a irmã ficam, por alguns dias, convivendo com essa presença esdrúxula.

É pelos olhos da menina adolescente que vamos conhecer a história, e é por seus olhos e palavras que, enquanto queremos saber mais sobre o suposto assassino, tomamos ciência da vida da própria menina: as lembranças que tem da mãe, a relação com a família, com a cidade, o lugarejo violento de fim de mundo para onde o pai foi transferido, o horror e o mistério que ela colhe, em segredo, da gaveta de inquéritos do pai.

Micheliny constrói sua história na cidade de Santana, em um cenário onde a violência está naturalizada, onde o machismo – essa forma de violência que agrupa outras tantas – está naturalizado, onde o painel político da ditadura militar aparece deixando rastros, angústias e suspeitas sobre os desaparecidos. Tudo isso transformando e sendo transformado, na usina interior que é sua protagonista, menina sagaz, inteligente, questionadora que fala tanto de masturbação feminina quanto da dúvida sobre o papel que escolherá para si, mas de antemão já adiantando que essa escolha será dela.

Sem dar respostas, Aqui, no coração do inferno, faz com que indaguemos sobre nossa sociedade, nossa liberdade, nossas meninas e meninos, neste país que parece obra de ficção.

Ah, não posso me esquecer de dizer que vamos ávidos caminhando para o final deste volume e ficamos surpreendidos com a habilidade com a qual a romancista o termina.

Recomendo muitíssimo.


Fui à cozinha e perguntei pra ele baixinho

Tu quer me comer?

Dessa vez, eu não saí correndo. Esperei uns cinco segundos pela resposta que não veio e emendei outras perguntas, apressadamente

Vai me dar uma dentada, vai?

É verdade que você comeu um cara?

Que gosto tem carne de gente?

Será que papai bateria em mim se sonhasse que eu tava na cozinha de papo com o garoto doido e assassino? Será que me amarraria ao pé da mesa feito uma bela galinha de domingo?”
(p. 81)

***
Aqui, no coração do inferno
Micheliny Verunschk
Romance
Ed. Patuá

2016

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Todos os abismos convidam para um mergulho, de Cinthia Kriemler



Por Adriane Garcia


“Apanhar, obedecer, saciar. Apanhar, obedecer, saciar. Apanhar, obedecer, saciar.”
(p. 259)

Eu já conhecia o trabalho anterior de Cinthia Kriemler, Na escuridão não existe cor-de-rosa, livro de contos do qual gostei muitíssimo. Quando peguei, há alguns dias, Todos os abismos convidam para um mergulho (ed. Patuá, 2017), não tinha a menor noção do que se tratava. Sei que comecei a ler num dia e no outro já havia terminado. Eu simplesmente não conseguia parar a leitura; nos momentos em que outras atividades me exigiam, ficava ansiosa precisando voltar.

Passei dois dias mergulhada na vida de Beatriz, entre sustos, revelações e crueldades. A protagonista de Cinthia é um abismo escuro, misterioso, fascinante. É Beatriz quem narra sua história, seu mundo, tudo aquilo que viu e vê. Desta maneira, é pelos olhos dela que o leitor passa a enxergar. Abismo dela, abismo nosso, Beatriz chama o leitor cada vez mais para o fundo: “Deixai toda esperança, vós que entrais.” Dante ficaria surpreso com o inferno que podemos criar entre nós.

Enquanto acompanhamos o trabalho de Beatriz, que é assistente social e atende vítimas de violência em situações de risco, mulheres e crianças violentadas, adolescentes prostituídos por seus próprios pais, também partilhamos de seu grande conflito: o suicídio da filha, Laura, que sofria de depressão. Beatriz não pode se perdoar por não ter percebido a depressão da própria filha enquanto cuidava dos filhos dos outros, culpa que carrega e que, a seu modo, tenta resolver na compulsão pelo sexo.

Ler este romance e caminhar com Beatriz é adentrar num dos lados mais escuros de nosso país. Todos os abismos convidam para um mergulho é também uma denúncia escancarada da infância e da violência contra a mulher no Brasil. De forma brilhantemente literária, Cinthia Kriemler constrói uma narradora complexa, uma mulher forte, feminista, independente, que se tornou dura por recusar a si própria o estereótipo de mulher frágil, que conseguiu se desconstruir, mas que não conseguiu sua reconstrução. E é na tentativa dessa reconstrução, onde parece só haver o erro, que tanto o que há ao redor de Beatriz quanto o próprio processo vivido por ela vão convergir para o mesmo ponto.

Algum dia quebraremos o círculo vicioso que a violência contra a infância inicia e que parece sem fim? Que esperança haveria para uma sociedade que maltrata crianças, que estupra meninos e meninas, que exerce o machismo e a misoginia com naturalidade? Que esperança haveria para vidas que nem nasceram?

“Antônio atirou na mãe. Eu sei que foi ele. O advogado também sabe. Mas não é isso que advogados fazem? Mentem, mentem, mentem. Com muita seriedade. Convencem. Tudo o mais é interpretação. A minha é de que Antônio nunca nasceu. Gente nasce de mãe e de pai, não de esperma e óvulo. Cópula, concepção, gestação é ciclo de bicho. No de gente, entra afeto. É preciso ser sonhado, esperado, idealizado, amado para se nascer. Antônio é só mais um animal parido. Eu sempre reconheço os afins.”
(p. 132)

Todos os abismos convidam para um mergulho é um livro excelente, mas, mais que isso, é um livro necessário. Um livro sobre tantas coisas que negligenciamos, sobre o preço alto do desamor.

“Uma mulher deve morar sozinha. Por algum tempo. Por muito tempo. Para sempre. Para ter o controle ou o descontrole da sua própria vida. Para escolher entre ser independente e depender do que quiser. Para se decidir pela liberdade que lhe convém, não pela que convém aos outros. Para aprender a prestar contas de horários, erros, decisões, copos de vodca e sexo apenas a si mesma.
Uma mulher deve saber que com os homens acontece diferente. E que por isso eles não sabem o quanto tudo isso representa. Porque nascem sob o privilégio do masculino. Porque crescem sob o privilégio do poder. Sem ranços, nem obstáculos, nem preconceitos condenando sua existência a um patamar inferior. Privilégio não é palavra feminina. Conquista é. Essa luta por uma paridade urgente que nos convoca a umas, mas não a todas. Essa capacidade de nos livrarmos da injustiça que nos espera na sala às cinco da manhã.
O que me dói não é encontrar Gustavo me esperando, esbravejando como papai fazia. Nem a mão dele apertando meu braço com força para me cobrar explicações. Nem as palavras horríveis que ele me diz antes e depois de eu mandar ele sair da minha casa. Só o que me dói é a cegueira. A minha cegueira longa e burra.”
(p. 155-156)

*** 

Todos os abismos convidam para um mergulho
Cinthia Kriemler
Romance
Ed. Patuá
2017



sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Vila Vermelho, de Jeter Neves, um livro memorável



Por Adriane Garcia


“Penso, Professor, que a literatura perdeu o prazo de validade. Você deve estar pensando que o pouco que sei do mundo foi a literatura que me deu. Tudo bem, não vou discutir, mas não foi ela que me deu dinheiro. Para ganhar dinheiro com a literatura, o sujeito tem de negar a natureza da literatura, se é que você me entende.”
(p. 44)

Há dias estou para falar desse livro, sua leitura me deixou impactada. É o impacto de me sentir conduzida, de ouvir uma boa história, uma história que só se torna grande porque um grande escritor soube contá-la.

Por muitas vezes, durante a leitura, perguntei-me o motivo de um livro desses não ser mais conhecido, lido, citado. A resposta passa pelo de sempre: o desprestígio da literatura na cultura do país de modo geral (o que influencia a eficácia da crítica) e a oferta cada vez maior de atividades que atraem para a rapidez e a superficialidade, em detrimento da profundidade e da introspecção.

Isso para não falar do número absurdo de analfabetos funcionais e da nossa educação, relegada a último plano. Como se não bastasse: tantas brasileiras e brasileiros que lutam para satisfazer necessidades bem mais imediatas: comer, defender algum teto onde se possa dormir, saber onde deixar os filhos durante o expediente de dez horas do dia mais três horas em ônibus e trens lotados; e tudo isso para, cansados de exploração e trânsito, irem cuidar apressadamente de suas casas e filhos; depois, dormir e começar tudo novamente; não sem antes ligar a televisão, de modo que se receba uma cota diária de medo e algo facilmente digerível, absolutamente digerido. O cansaço nunca quer que pensemos.

Mas o livro do qual falo é Vila Vermelho. Seu autor é Jeter Neves. Jeter é mineiro de Miradouro, professor, tendo recebido os prêmios literários do Paraná, Cidade de Belo Horizonte e, com este romance, o Minas Gerais de Literatura.

Vila Vermelho é a história de um homem adulto que, após décadas, volta à sua cidade. Caburé, protagonista cujo nome não conheceremos (apenas este apelido), retorna à Vila Vermelho porque ouve falar que seu amigo de infância, Tié, morreu. Chegando à Vila, descobre que a morte de Tié é um boato. Na cidade por uma semana, Caburé narra a um antigo professor, internado em um asilo, as lembranças de sua vida naquele lugar.  Em estado vegetativo, o professor não interfere na narrativa. Assim, o leitor conhece a história de Vila Vermelho naqueles anos das décadas de cinquenta e sessenta.

O que o leitor tem, a partir de então, são duas visões: macro e microscópica.  No plano macro, o leitor enxerga a Vila, o país, a agitação política e revolucionária das mentes jovens, a vila como um lugar dentro de outro, como tantos que se faziam por aquele Brasil. Microscopicamente, o leitor vê personagens que, com suas idiossincrasias perfeitamente construídas por Jeter Neves, tornam Vila Vermelho um lugar único. Vila Vermelho é daqueles lugares que um leitor não esquece, que fica na geografia literária pessoal de quem lhe soube, assim como a Antares de Érico Veríssimo, ou a Olhos D’água de Maria Valéria Rezende, ou a Comala, de Juan Rulfo.

Caburé é filho de um fazendeiro e de uma herdeira rica, mas a família perde tudo com a bebedeira e boemia do pai. Na Vila, vai viver com outras crianças pobres, mas estuda, com bolsa, no melhor colégio da região, onde conhece Isadora, menina rica e comunista, pela qual se apaixona. Isadora, sendo rica, identifica-se com os pobres; Caburé, pobre, identifica-se com os ricos.

Mário é outro jovem, o mais velho da turma, que se torna marinheiro e envia postais de suas viagens pelo mundo a Caburé. O leitor verá a transformação de Mário: de marinheiro admirador do liberalismo norte-americano a rebelde com idéias comunistas. Mário, com seus postais, crê doutrinar Caburé para o Comunismo. Caburé parece ser doutrinado, mas o leitor sabe, de antemão, que Caburé é um vencedor, isto é, um homem bem-sucedido dentro dos valores capitalistas, cujo trabalho de sucesso é legalizar terras que foram indígenas.

Todos os personagens de Vila Vermelho são singulares e necessários para a narrativa, mas alguns me marcaram especialmente. Impossível esquecer a força da mãe de Caburé (a família de Caburé nunca aparece nomeada), mulher forte que guia a família enquanto o marido destrói toda a fortuna e que na miséria, como costureira, esforça-se por estudar um dos filhos, nosso narrador. Seu Giuseppe, o pai dos Russo, uma espécie de Dom Quixote anarquista e questionador, que tira os filhos da escola para dar a eles uma educação humanista e cujo destino me fez desatar em lágrimas. Tié e Taú, os grandes heróis de Vila Vermelho, os irmãos que saem para o Rio de Janeiro (com passagens financiadas pela turminha de amigos) para ingressarem na Marinha e que descobrem toda a crueldade e o engano da cidade grande.

Acompanhar a história de Vila Vermelho por aquelas 302 páginas é acompanhar a vida.  Não é sempre que encontramos um livro que pulsa. Ainda estou aqui, com a turma de meninos que se reunia para jogar bola e fazer planos, como se pudessem conduzir a vida. Não podem. Não puderam. A vida parece um organismo próprio que nos toma. Agora conheço um rio chamado Rio Vermelho.  Ainda estou aqui com os personagens que parecem tão reais que tenho certeza que existiram. É bonito quando um escritor consegue que acreditemos. 

“...não gostei de Isadora no primeiro contato: era bonita demais, sabida demais, segura demais. Era preciso desconfiar de mulher bonita, sabida e segura demais, mas aceitei o convite sem discutir, primeiro porque eu queria estar perto dela, estava vaidoso de ter sido escolhido por ela, segundo porque Mário tinha dito para eu participar da política estudantil. A chapa teve o apoio do irmão de Isadora, que vinha nos fins de semana para organizar e orientar a campanha. Era estudante de engenharia, no Rio, fazia parte da diretoria da UNE, tinha experiência em política estudantil. Foi ele, e não Isadora, que explicou o que a chapa adversária representava: tradição, família e propriedade, um movimento católico ultraconservador surgido em São Paulo. “Vocês ainda vão ouvir falar dessa desgraça reacionária”, disse ele – a outra chapa era a do “Onan Punho-de-Aço”. Isadora explicou o que era uma “desgraça reacionária”, e eu disse que não entendia a ira dela e do irmão contra a TFP – sigla da tal “desgraça reacionária” –, pois o movimento defendia justamente a tradição e a propriedade da família dela contra os comunistas. E ousei: “É uma contradição”. Ela disse que as contradições faziam parte do processo dialético, que eu ia entender melhor isso através da práxis. Me arrependi da ousadia porque, além de passar por ignorante, agora já eram duas palavras a mais que eu não conhecia: dialética e práxis...”
(p. 121 -122)

***
Vila Vermelho
Jeter Neves
Romance
Ed. Record

2013

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Da leitura de Pancho Villa não sabia esconder cavalos, de Adriana Brunstein



A vida não é o Cirque du Soleil – A verdade descarada de Adriana Brunstein)

Por Adriane Garcia


Quando criança, fui nestes circos que armam tendas em bairros de fins de mundo que mais parecem desertos povoados. Chão de terra, poeira vermelha, arquibancadas finas de tábuas que enchem as bundas dos visitantes de ferpas. Essa foi uma das primeiras associações que fiz quando, pela primeira vez, e isso já faz algum tempo, li as crônicas/contos de Adriana Brunstein. Depois vinha o dono do circo, senhoras e senhores, anunciando o grande espetáculo. Mágicos que nos deixavam ver as pontas dos lenços escondidos nas cartolas, malabaristas que deixavam pinos caírem, mulheres lindas na falta de mulheres lindas com suas meias-calças desfiadas, animais magros e desanimados, vestidos de roupas rotas e purpurinadas, globos da morte enfurecidos de fumaça e som, que só conseguiam nos intoxicar. Por fim, palhaços que caíam, palhaços que levavam tortas na cara, palhaços que diziam a senha errada e terminavam atirados aos leões. E ríamos, ríamos muito, pois a outra opção seria chorar.

Agora estamos diante deste Pancho Villa não sabia esconder cavalos. Não sabia. Não sabe. Adriana Brunstein não esconde nada e por isso rimos de seu Pancho Villa, porque ele expõe toda a tragédia dos planos que nunca, jamais dão certo e porque, ainda mais tragicamente, ele acha que desta vez, aquele cavalo atrás da árvore poderá passar despercebido e, quem sabe, ele, que depende disso, poderá ser feliz.

O que dizer dessa escritora? Eu, como leitora assídua de seus textos que sou? Digo que Brunstein traz ares que sinto novos e deliciosos na prosa brasileira contemporânea. Primeiramente, traz pontos de vista de personagens femininos que se situam entre a quarta e a quinta décadas da vida, quando a beleza física padronizada ou nunca existiu ou está em decadência, quando já se está sob efeito do período da menopausa ou na iminência dele. Quando poucas ilusões restam. Depois, traz homens que se debatem nos relacionamentos sob o prisma de uma sinceridade incomum a respeito do fracasso. Os personagens de Adriana Brunstein falam aquilo que só falamos quando não há ninguém ouvindo, são um verdadeiro desastre. Tudo isso com um humor infalível e uma linguagem que já podemos chamar de estilo.

Emocionamo-nos. No fundo sentimos que há mais que um choro guardado. Lendo-a, sabemos muito bem do que estamos rindo. Conhecemos bem essas quedas. Conhecemos sua denúncia, sua indiscreta confissão sobre coisas que pertencem a uma raça inteira. A queda do palhaço é universal.

Seus personagens são como os personagens dos circos de infância em bairros abandonados. Há uma profunda compaixão nisso. E o que é o palhaço senão aquele que se empresta para cair, a despeito dos próprios tombos, para que possamos rir um pouco?



Ela tava lá tentando tirar a calcinha da bunda, perguntei se queria ajuda, levei uma cotovelada no olho, entrei no ônibus e alguém lá fora gritou “lincha” e alguém lá dentro gritou “bicha é você”, depois ficou todo mundo quieto pra ouvir o “olha o kit kat da nestlé, ó, é um por dois e dois por cinco, ó”, uma velha comprou, disse que tava vencido e o rapaz respondeu que “pode ver que tá no prazo, ó”, mas ela cuspiu tudo e nem viu que a janela tava fechada, e uma criança exclamou “que merda” e tomou um tapa na boca e olhou solidária pro meu olho roxo, eu respondi que daqui pra frente tudo piora e o ônibus freou com tudo e voou criança, velha, caixa cheia de kit kat da nestlé, ó, parecia reality show de suruba onde ninguém goza, nem fingir consegue, uma moça perdeu um brinco e saiu engatinhando até que ouviu barulho de zíper e gritou “sai fora, tarado”, mas não era, era alguém abrindo a bolsa pra ver se tinha quebrado o frasco de perfume, tinha, empesteou tudo e um meio bêbado acordou e pediu mais uma dose daquilo ali, enfiaram um kit kat em sua boca, ó, e ele chupou com o que o fulano que ajeitava os óculos chamou de expertise, para a moça do brinco era tudo nojento demais e ela pediu pra descer e o motorista disse que não era parada e que a “cocota que esperasse”, a criança fez cara de quem queria saber o que era cocota mas ficou calada, acho que ninguém sabia e que ninguém quer saber mais nada porque já é foda descer com a vida no ponto certo, cacete, passei dois, desci e atravessei a rua para esperar a volta mas já era tarde demais pra qualquer coisa.”

***
Pancho Villa não sabia esconder cavalos
Contos
Adriana Brunstein
Ed. Laranja Original
2017



sábado, 14 de outubro de 2017

A paixão segundo G.H. – de Clarice Lispector



Por Adriane Garcia

Assombro e pavor. Iluminação e transcendência. A beleza de não se querer mais a beleza. O terror e a epifania. O erotismo na sua forma mais primordial: a morte. A paixão segundo G.H. de Clarice Lispector é das obras mais geniais que se pode ler em literatura.

A busca de sua protagonista é a busca da verdade, mas nem ela sabe exatamente o que busca, já que está no espaço do desconhecido; a busca da despersonalização, a busca do ser antes do humano, o inumano (não o desumano), aquele que pode chegar mais perto de Deus porque esteve no inferno. Busca terrível, percurso que, de início, parecerá ao leitor acontecer durante uma manhã, em um quarto de empregada, mas que acontece durante milênios, por funda ancestralidade. Iluminação que parecerá ter sido desencadeada por uma barata, pelo ser asqueroso de uma barata, mas que muito antes fora desencadeado pela procura do intervalo, pelo entre o número um e o número dois, pelo intervalo entre uma nota musical e outra, pelo intervalo que é o silêncio. Na inexpressividade existe um tesouro, no tédio, na monotonia. A paixão segundo GH é feita de inversões mirabolantes que fazem todo sentido, sem querer apelar apenas para a inteligência. Na inexpressividade pode existir o amor. Que espécie de amor? O amor que se descobre depois da transgressão, depois de ultrapassada a lei.

Um livro demoníaco, divino, revelador, onde cada parágrafo é uma obra de arte. Clarice Lispector pura, a bruxa capaz de atravessar a linha que separa a “normalidade” da “loucura” e voltar para nos contar.

Absolutamente imperdível. Agradaria Bataille, agradaria Nietzsche.
  
“O medo grande me aprofundava toda. Voltada para dentro de mim, como um cego ausculta a própria atenção, pela primeira vez eu me sentia toda incumbida por um instinto. E estremeci de extremo gozo como se enfim eu estivesse atentando à grandeza de um instinto que era ruim, total e infinitamente doce – como se enfim eu experimentasse, e em mim mesma, uma grandeza maior do que eu. Eu me embriagava pela primeira vez de um ódio tão límpido como de uma fonte, eu me embriagava com o desejo, justificado ou não, de matar.
Toda uma vida de atenção – há quinze séculos eu não lutava, há quinze séculos eu não matava, há quinze séculos eu não morria – toda uma vida de atenção acuada reunia-se agora em mim e batia como um sino mudo cujas vibrações eu não precisava ouvir, eu as reconhecia. Como se pela primeira vez enfim eu estivesse ao nível da Natureza.”  (p. 52)

***
A paixão segundo GH
Clarice Lispector         
Romance
2014
Rocco











sábado, 7 de outubro de 2017

Escrevo ao vivo, de Anízio Vianna




“(...) O meu agora é mais eterno que este minuto. Guarda a melhor tempestade. Não funciona um guarda-chuva. Eu sou o que você não leu.” ( p. 246)

Há alguns dias estive fisgada por um livro. É o Escrevo ao vivo, de Anízio Vianna. O livro, que traz 264 páginas, volumoso, em geral, para uma coletânea de poesia, me surpreendeu porque dá conta da quantidade, com qualidade. É livro de pegar e só largar no final; embala, leva, encanta. Há nele contundência, beleza, fina ironia, um tipo muito especial de fé e empatia enorme.

Anízio consegue fazer uma poesia descomplicada, abordando temas sérios, de maneira profunda; dando conta do mundo com suas inúmeras referências. Ao utilizar principalmente as notícias de jornal como motor para a escrita em Escrevo ao vivo, Anízio reporta ao leitor acontecimentos atuais, mas, antes, passa-os pelo filtro da poesia. O resultado são poemas que tratam, por exemplo, de política, sociedade, religião, religiosidade, violência, violência policial, amor, machismo, racismo, desigualdade, compaixão.

A maioria dos poemas traz um número de referência, que ao fim do livro leva o leitor à notícia que o desencadeou. O livro de Anízio Vianna, assim, além do exercício delicioso de ler poesia, nos dá o exercício da revisita, um convite sublinhado para a reflexão e apela para nossa memória, tão fragilizada em tempos de excesso insano de informações.

É ainda de se notar, na forma, a força da musicalidade nos poemas de Escrevo ao vivo. O ritmo privilegia a leitura em voz alta e, muitas vezes, me peguei falando poemas que quase me vinham como uma espécie de rap.

Com uma consciência social agudíssima, inteligência, riqueza de leituras e uma sensibilidade tão necessária para a poesia, os poemas de Anízio Vianna conseguem um ataque coordenado: cérebro e coração. O leitor, atordoado, só quer ler mais. Poesia com o pé no mundo, que aprendeu uma das lições emocionadas do grande Drummond. O tempo presente, os homens presentes, a vida presente é a matéria de Anízio Vianna.


À D. ELOIZA

Faço um poema p’ra me despedir do mar.
O mar não entende pedidos nem o aço das pedras.
Sente que sou da montanha e que ainda estou às margens
do Rio Arrudas, lugar onde nasci e hoje infância.

Vila Esplanada:
presídio  de mulheres, enchentes constantes.
Minha mãe me tirou de lá com suas mãos grandes – de calos e reentrâncias –
contra minhas mãos pequenas e lisas de professor.

Cumpriu à risca o fardo de fêmea:
pariu meu irmão e eu.
Porém, não rompeu a lógica das estatísticas.

Saiu de São João de Manteninha aos dezoito sem letra
com suposta data de nascimento na cabeça.
Desceu na Rodoviária Governador Israel Pinheiro,
Praça Rio Branco, sem número
e ainda sob efeito do êxtase da cidade de Belo Horizonte
descarregou as malas,
tirou certificado,
identidade,
carteira de trabalho
e completou seu êxodo.

Esboçou primeiro sorriso
diante do êxito de cruzar destino quase ilesa:
com calos e reentrâncias nas mãos.

O médico diagnosticou
alergia aos produtos de limpeza,
leve tristeza e hipertensão.

Vila Esplanada:
presídio de mulheres, enchentes constantes.
Minha mãe me tirou de lá antes da verticalização
das favelas.

Ela segue sem religião,
mas com uma fé abrupta ora ao Senhor.
Não sei se com fervor ou um ódio apaziguado
pelo excesso de amor.

Não sei se com alegria
ou consternada
pelos dias em que foi maltratada lavando chão.

Já freqüentou a Igreja Universal do Reino de Deus,
o Vale do Amanhecer,
as Católicas
e Seicho-No-Ie.

Descobriu que deus não mora numa sacada,
não gira em torno de uma órbita
e que, vez ou outra,
Ele irrealiza os nossos desejos.
(p. 208-209)

***
Escrevo ao vivo
Anízio Viana
Poesia
Quarto Setor Editorial

2016

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

“Ainda”, de Laura Cohen Rabelo – Da impotência sobre a permanência, ou vice-versa


Por Adriane Garcia

Foi com alegria e curiosidade que recebi o livro “Ainda”, de Laura Cohen Rabelo, edição bonita da Impressões de Minas, pelo selo Leme. O desejo de lê-lo já me havia sido despertado pela indicação de outra escritora, Cristina Agostinho. Cristina havia ficado impressionada pela riqueza do livro – vocabular e de conhecimentos.

Já nas primeiras páginas, dei razão à Cristina; Laura conta uma história com fluidez e mantém aceso o interesse do leitor. Seu texto é permeado de “pequenas tensões”, e ela sabe bem manejar esse tempo, dar-nos a conhecer em momento exato, de maneira que, enquanto acompanhamos sua protagonista Marina e a forma como se dá seu relacionamento com Felipe, outras questões, questões profundas e importantes, perpassam a narrativa.

Marina é uma estudante de grego antigo, indo em direção ao mestrado. Felipe é restaurador, amigo da irmã de Marina, Martinha, com quem divide o apartamento até sua ida para Portugal e Grécia. Nesse ínterim, Marina e Felipe se conhecem melhor e, visto em primeira camada, o romance de Laura Cohen é a história do desenvolvimento desse afeto. Porém, lido em segunda camada, há uma ferida que não se cicatriza: o passado. Não o das personagens, propriamente (que, por sinal, são historiadores, restauradores, estudantes de grego antigo...), mas o passado da humanidade.

Com muita competência, Laura reflete e faz refletir sobre a angústia causada pela nossa impotência diante do passado. Em determinado momento, sua personagem Marina nos indaga: “O que é menos danoso – receber sempre os restos das coisas antigas ou não receber absolutamente nada, encarando o esquecimento total como um fato absoluto e inevitável? Como dói menos na memória: quando falta a maior parte ou quando há o mais completo silêncio e ignorância de registros? Por fim: seria mais danoso esquecer-se de tudo ou lembrar-se de absolutamente tudo?”

Ainda é um romance que trata de esquecimento e memória; permanência e passagem; o ser, a morte e a imortalidade; a falibilidade das reconstituições. Não raro, recorrem em “Ainda” as bibliotecas, estantes de instituições ou particulares, o livro aparecendo como esse artefato carregado de tempo e de tentativas de dar conta do que nos antecedeu.

Laura Cohen Rabelo constrói um romance que emociona. Perante o mistério, somos convidados a refazer o nada, a encontrar uma narrativa diante das ruínas do nada, para que tenhamos alguma coisa, algum sentido. O passado, depois de narrado, se nos apresenta. Está diante de nós com sua ferida aberta e nos pede para tocá-lo, quer se provar verdadeiro, quer continuar existindo. É interessante notar que, em Caravaggio, na pintura “A incredulidade de Tomé”, a ferida de Jesus, apesar de aberta, não sangra. É Jesus que ser quer crido. No romance de Laura,  a ferida de Felipe sangra, e muito. É o sangue que quer ser crido. Como não creríamos na angústia de tudo o que nos é irrecuperável?



(...) Com o mesmo mármore que eles construíram as colunas do templo preenchem-se os espaços vazios dilacerados pela duração dos dias. No séc. XIX tinham colocado grampos de ferro para unir os pedaços caídos, grampos de ferro que, como você bem sabe, dilatam com o calor e oxidam com o tempo, avermelhando o branco imaculado do mármore. Ah, os bem-intencionados do século XIX e sua pressa, sua ciência inquebrável que provoca mais mal do que bem. Mas eu me pergunto, Marina, estamos nós provocando mais estrago do que consertando? E será que é necessário consertar as coisas assim? De qualquer forma, apesar da quantidade assustadora de gente que passa por aqui, a sensação é de uma absurda harmonia. Equilíbrio, civilidade. São as colunas que todo artista copiou, a arquitetura que todo construtor desejou, invejou, odiou, e como peregrinos de uma religião absurda (uma religião que nem parece realmente poder ser chamada de religião, uma religião que parece jamais ter existido), todos caminhavam pisando as pedras no mais pleno silêncio ou com os mais tímidos sussurros, dizendo palavras das mais diversas línguas. O perfume das oliveiras, ácido, mas também meio doce no fim, toma o ar e se mistura ao cheiro seco da areia quente. Amo o calor mais do que qualquer pedra, mais do que qualquer ruína. Pelo excesso de luz, José consegue ver bem melhor do que em Portugal, abrindo bem os seus olhos miúdos pelos óculos de muito aumento. Vez ou outra ele parava para descansar, contemplar o que podia contemplar e me contar uma história, e eu lhe dava água e pistaches (os melhores que já comemos, Marina). Ele disse uma coisa bonita que quero guardar com você: é que todo mundo ergue suas colunas já ansiando que elas virem ruínas, ansiando que no futuro as pessoas se lembrem de nós (...)” p.70/71

***

Ainda
Laura Cohen Rabelo
Edições de Minas
Romance

2012

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Orides Fontela - Poesia completa



Por Adriane Garcia

Terminei de ler o livro Orides, Poesia completa (contendo os seis livros), publicado pela editora Hedra. 

Há tempos eu me cobrava avançar um pouco na poesia de Orides Fontela. Confesso que, apesar de reconhecer como inegável o rigor da poeta, seus versos absolutamente bem medidos, sua poesia marcada pela exatidão, gostei mesmo foi do livro Rosácea, onde acho que ela se solta um pouco mais nas temáticas. Explico:

É que a poesia de Orides traz indagações filosóficas sobre o ser, a busca de uma essência e tenta destrinchar a forma das coisas, ao mesmo tempo, dando notícia dessa impossibilidade, da insuficiência da palavra para executar tal projeto. Algo bonito e profundo, o desfazimento das formas. O problema, para a minha leitura, foi o quanto isso se repetia por livros e livros. Algumas simbologias, como pássaro, por exemplo, tão recorrentes que, quando voltavam , eu pensava: "lá vem o pássaro de novo". 

Ainda assim, há poemas belíssimos, reflexões do fundo do silêncio. Vale ler e conhecer. 

NOTURNO

Os que nascem de noite
e, entre ossos, vigiam
                        o fogo
os que olham os astros
e, oprimidos, respiram
                    em cavernas

os que vão viver apesar
da escuridão e nos olhos
a luz clandestina
                      acendem

os que não sonham, os que nascem
                                          de noite
não vieram brincar: seu peito
guarda uma só palavra. 


***

Orides Fontela - Poesia completa
Organização Luis Dolhnikoff
Hedra
2015

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Nihonjin – Sagas para nos tornarmos visíveis


Por Adriane Garcia

Eu havia acabado de ler uma citação do escritor turco Orhan Pamuk: “o juízo moral é um inevitável terreno pantanoso no romance. Tenhamos em mente que a arte do romance produz seus melhores resultados não quando julga as pessoas, mas quando as compreende”. Concomitante, eu lia Nihonjin e pensava que, quando fosse escrever sobre o livro de Nakasato, usaria essa citação, porque era exatamente o que eu sentia sobre o modo como ele realizara este romance.

Muitas perguntas se interpuseram durante minha leitura. Eu me perguntava, principalmente, se eu havia lido em literatura outra história cujos personagens fossem esses, trazidos pela imigração japonesa ao Brasil. E eu me respondia não, respondia não para várias perguntas que me fazia, de meu desconhecimento sobre essas pessoas, sobre esse processo, não o histórico, que acabamos sabendo em linhas gerais, muitas vezes, mas o processo íntimo, que somente a literatura oferece.

O que Nakasato nos dá nesta sua obra é uma saga. A saga de uma família japonesa, marido, esposa e agregado que vem trabalhar na lavoura do café, na segunda década do século XX. Por meio desta família e sua descendência, o leitor apreende e aprende, torna-se aquele que se aproxima do outro e: compreende. Desde o avô, o ojiichan, súdito do imperador, nacionalista inflexível, ao filho Haruo, nascido em solo brasileiro e cujos valores apontavam na direção da assimilação e do convívio possível de dois mundos; da esposa que, com naturalidade, somente se sentava à mesa para comer, após a refeição servida do marido, à que tudo abandona, em busca da sua realização pessoal, o que o leitor vislumbra é a formação de cada um e lê, empático, sobre personagens que figuram em antagonismo.

A narração é fluida, a estrutura do romance se dá entre capítulos que quase funcionam como contos. Presente e passado, na voz eficiente de um narrador que deixa claro, desde o início, que está trabalhando com a memória cheia de lacunas, que está preenchendo essas lacunas com as entrevistas que faz com seu avô Hideo e seu tio Hanashiro, com o convívio, o ouvir dizer de suas tias e seu pai, com o despertar das fotos amareladas que dormiam numa caixa de papelão. É de tentar imaginar como veio aquela primeira esposa do avô, Kimie, doce e trágica personagem que chega a ser poética, aguardando a neve no Brasil, que Oscar Nakasato começa sua reconstituição.

O livro é um convite para descobrir este outro mundo que veio habitar o Brasil, que construiu colônias, que ergueu o bairro da Liberdade, que se recusava a aceitar a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial, que precisou aprender a viver com o gaijin, que, pensando se proteger, lutou contra a miscigenação dos seus, mas que não conseguiu controlar o chamado invencível do amor (o amor, sabemos, desconhece etnias).

Ao contar a história da família de Hideo no Brasil, Nakasato nos apresenta detalhes da vida desses imigrantes, leva-nos para dentro de suas casas, de seus conflitos, de suas dificuldades, de sua luta, de sua invisibilidade. Nihonjin é um livro que ensina e emociona e que em sua linguagem tão comunicativa se constitui um romance com predicados de excelência e sem nenhum pedantismo.
É de ler, reler e até dar de presente.

Ojiichan, comparando Kimie com a vovó, disse que eram muito diferentes, que ela, Kimie, era medrosa, fraca, que não servia para o trabalho duro da lavoura. E falou, rindo um riso que não ria havia muito tempo, um riso que trazia do passado distante, que ela ficou esperando pela neve no Brasil. Eu me surpreendia enquanto o riso ia se transformando em um sorriso melancólico.
Agora via nas marcas de expressão de seu rosto e nos olhos cansados uma mágoa que trazia daquele passado. Eu disse:
–  Gostaria de tê-la conhecido.
– Para quê? Não fazia nada direito, mal falava.
        Mas gostei de Kimie, interessei-me por ela. Pensei nela como personagem, alguém que nasceu da espera pela neve numa fazenda, no interior de São Paulo.(p. 10 – 11)

*** 

Nihonjin
Oscar Nakasato
Benvirá
2011