sábado, 14 de outubro de 2017

A paixão segundo G.H. – de Clarice Lispector



Por Adriane Garcia

Assombro e pavor. Iluminação e transcendência. A beleza de não se querer mais a beleza. O terror e a epifania. O erotismo na sua forma mais primordial: a morte. A paixão segundo G.H. de Clarice Lispector é das obras mais geniais que se pode ler em literatura.

A busca de sua protagonista é a busca da verdade, mas nem ela sabe exatamente o que busca, já que está no espaço do desconhecido; a busca da despersonalização, a busca do ser antes do humano, o inumano (não o desumano), aquele que pode chegar mais perto de Deus porque esteve no inferno. Busca terrível, percurso que, de início, parecerá ao leitor acontecer durante uma manhã, em um quarto de empregada, mas que acontece durante milênios, por funda ancestralidade. Iluminação que parecerá ter sido desencadeada por uma barata, pelo ser asqueroso de uma barata, mas que muito antes fora desencadeado pela procura do intervalo, pelo entre o número um e o número dois, pelo intervalo entre uma nota musical e outra, pelo intervalo que é o silêncio. Na inexpressividade existe um tesouro, no tédio, na monotonia. A paixão segundo GH é feita de inversões mirabolantes que fazem todo sentido, sem querer apelar apenas para a inteligência. Na inexpressividade pode existir o amor. Que espécie de amor? O amor que se descobre depois da transgressão, depois de ultrapassada a lei.

Um livro demoníaco, divino, revelador, onde cada parágrafo é uma obra de arte. Clarice Lispector pura, a bruxa capaz de atravessar a linha que separa a “normalidade” da “loucura” e voltar para nos contar.

Absolutamente imperdível. Agradaria Bataille, agradaria Nietzsche.
  
“O medo grande me aprofundava toda. Voltada para dentro de mim, como um cego ausculta a própria atenção, pela primeira vez eu me sentia toda incumbida por um instinto. E estremeci de extremo gozo como se enfim eu estivesse atentando à grandeza de um instinto que era ruim, total e infinitamente doce – como se enfim eu experimentasse, e em mim mesma, uma grandeza maior do que eu. Eu me embriagava pela primeira vez de um ódio tão límpido como de uma fonte, eu me embriagava com o desejo, justificado ou não, de matar.
Toda uma vida de atenção – há quinze séculos eu não lutava, há quinze séculos eu não matava, há quinze séculos eu não morria – toda uma vida de atenção acuada reunia-se agora em mim e batia como um sino mudo cujas vibrações eu não precisava ouvir, eu as reconhecia. Como se pela primeira vez enfim eu estivesse ao nível da Natureza.”  (p. 52)

***
A paixão segundo GH
Clarice Lispector         
Romance
2014
Rocco











sábado, 7 de outubro de 2017

Escrevo ao vivo, de Anízio Vianna




“(...) O meu agora é mais eterno que este minuto. Guarda a melhor tempestade. Não funciona um guarda-chuva. Eu sou o que você não leu.” ( p. 246)

Há alguns dias estive fisgada por um livro. É o Escrevo ao vivo, de Anízio Vianna. O livro, que traz 264 páginas, volumoso, em geral, para uma coletânea de poesia, me surpreendeu porque dá conta da quantidade, com qualidade. É livro de pegar e só largar no final; embala, leva, encanta. Há nele contundência, beleza, fina ironia, um tipo muito especial de fé e empatia enorme.

Anízio consegue fazer uma poesia descomplicada, abordando temas sérios, de maneira profunda; dando conta do mundo com suas inúmeras referências. Ao utilizar principalmente as notícias de jornal como motor para a escrita em Escrevo ao vivo, Anízio reporta ao leitor acontecimentos atuais, mas, antes, passa-os pelo filtro da poesia. O resultado são poemas que tratam, por exemplo, de política, sociedade, religião, religiosidade, violência, violência policial, amor, machismo, racismo, desigualdade, compaixão.

A maioria dos poemas traz um número de referência, que ao fim do livro leva o leitor à notícia que o desencadeou. O livro de Anízio Vianna, assim, além do exercício delicioso de ler poesia, nos dá o exercício da revisita, um convite sublinhado para a reflexão e apela para nossa memória, tão fragilizada em tempos de excesso insano de informações.

É ainda de se notar, na forma, a força da musicalidade nos poemas de Escrevo ao vivo. O ritmo privilegia a leitura em voz alta e, muitas vezes, me peguei falando poemas que quase me vinham como uma espécie de rap.

Com uma consciência social agudíssima, inteligência, riqueza de leituras e uma sensibilidade tão necessária para a poesia, os poemas de Anízio Vianna conseguem um ataque coordenado: cérebro e coração. O leitor, atordoado, só quer ler mais. Poesia com o pé no mundo, que aprendeu uma das lições emocionadas do grande Drummond. O tempo presente, os homens presentes, a vida presente é a matéria de Anízio Vianna.


À D. ELOIZA

Faço um poema p’ra me despedir do mar.
O mar não entende pedidos nem o aço das pedras.
Sente que sou da montanha e que ainda estou às margens
do Rio Arrudas, lugar onde nasci e hoje infância.

Vila Esplanada:
presídio  de mulheres, enchentes constantes.
Minha mãe me tirou de lá com suas mãos grandes – de calos e reentrâncias –
contra minhas mãos pequenas e lisas de professor.

Cumpriu à risca o fardo de fêmea:
pariu meu irmão e eu.
Porém, não rompeu a lógica das estatísticas.

Saiu de São João de Manteninha aos dezoito sem letra
com suposta data de nascimento na cabeça.
Desceu na Rodoviária Governador Israel Pinheiro,
Praça Rio Branco, sem número
e ainda sob efeito do êxtase da cidade de Belo Horizonte
descarregou as malas,
tirou certificado,
identidade,
carteira de trabalho
e completou seu êxodo.

Esboçou primeiro sorriso
diante do êxito de cruzar destino quase ilesa:
com calos e reentrâncias nas mãos.

O médico diagnosticou
alergia aos produtos de limpeza,
leve tristeza e hipertensão.

Vila Esplanada:
presídio de mulheres, enchentes constantes.
Minha mãe me tirou de lá antes da verticalização
das favelas.

Ela segue sem religião,
mas com uma fé abrupta ora ao Senhor.
Não sei se com fervor ou um ódio apaziguado
pelo excesso de amor.

Não sei se com alegria
ou consternada
pelos dias em que foi maltratada lavando chão.

Já freqüentou a Igreja Universal do Reino de Deus,
o Vale do Amanhecer,
as Católicas
e Seicho-No-Ie.

Descobriu que deus não mora numa sacada,
não gira em torno de uma órbita
e que, vez ou outra,
Ele irrealiza os nossos desejos.
(p. 208-209)

***
Escrevo ao vivo
Anízio Viana
Poesia
Quarto Setor Editorial

2016

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

“Ainda”, de Laura Cohen Rabelo – Da impotência sobre a permanência, ou vice-versa


Por Adriane Garcia

Foi com alegria e curiosidade que recebi o livro “Ainda”, de Laura Cohen Rabelo, edição bonita da Impressões de Minas, pelo selo Leme. O desejo de lê-lo já me havia sido despertado pela indicação de outra escritora, Cristina Agostinho. Cristina havia ficado impressionada pela riqueza do livro – vocabular e de conhecimentos.

Já nas primeiras páginas, dei razão à Cristina; Laura conta uma história com fluidez e mantém aceso o interesse do leitor. Seu texto é permeado de “pequenas tensões”, e ela sabe bem manejar esse tempo, dar-nos a conhecer em momento exato, de maneira que, enquanto acompanhamos sua protagonista Marina e a forma como se dá seu relacionamento com Felipe, outras questões, questões profundas e importantes, perpassam a narrativa.

Marina é uma estudante de grego antigo, indo em direção ao mestrado. Felipe é restaurador, amigo da irmã de Marina, Martinha, com quem divide o apartamento até sua ida para Portugal e Grécia. Nesse ínterim, Marina e Felipe se conhecem melhor e, visto em primeira camada, o romance de Laura Cohen é a história do desenvolvimento desse afeto. Porém, lido em segunda camada, há uma ferida que não se cicatriza: o passado. Não o das personagens, propriamente (que, por sinal, são historiadores, restauradores, estudantes de grego antigo...), mas o passado da humanidade.

Com muita competência, Laura reflete e faz refletir sobre a angústia causada pela nossa impotência diante do passado. Em determinado momento, sua personagem Marina nos indaga: “O que é menos danoso – receber sempre os restos das coisas antigas ou não receber absolutamente nada, encarando o esquecimento total como um fato absoluto e inevitável? Como dói menos na memória: quando falta a maior parte ou quando há o mais completo silêncio e ignorância de registros? Por fim: seria mais danoso esquecer-se de tudo ou lembrar-se de absolutamente tudo?”

Ainda é um romance que trata de esquecimento e memória; permanência e passagem; o ser, a morte e a imortalidade; a falibilidade das reconstituições. Não raro, recorrem em “Ainda” as bibliotecas, estantes de instituições ou particulares, o livro aparecendo como esse artefato carregado de tempo e de tentativas de dar conta do que nos antecedeu.

Laura Cohen Rabelo constrói um romance que emociona. Perante o mistério, somos convidados a refazer o nada, a encontrar uma narrativa diante das ruínas do nada, para que tenhamos alguma coisa, algum sentido. O passado, depois de narrado, se nos apresenta. Está diante de nós com sua ferida aberta e nos pede para tocá-lo, quer se provar verdadeiro, quer continuar existindo. É interessante notar que, em Caravaggio, na pintura “A incredulidade de Tomé”, a ferida de Jesus, apesar de aberta, não sangra. É Jesus que ser quer crido. No romance de Laura,  a ferida de Felipe sangra, e muito. É o sangue que quer ser crido. Como não creríamos na angústia de tudo o que nos é irrecuperável?



(...) Com o mesmo mármore que eles construíram as colunas do templo preenchem-se os espaços vazios dilacerados pela duração dos dias. No séc. XIX tinham colocado grampos de ferro para unir os pedaços caídos, grampos de ferro que, como você bem sabe, dilatam com o calor e oxidam com o tempo, avermelhando o branco imaculado do mármore. Ah, os bem-intencionados do século XIX e sua pressa, sua ciência inquebrável que provoca mais mal do que bem. Mas eu me pergunto, Marina, estamos nós provocando mais estrago do que consertando? E será que é necessário consertar as coisas assim? De qualquer forma, apesar da quantidade assustadora de gente que passa por aqui, a sensação é de uma absurda harmonia. Equilíbrio, civilidade. São as colunas que todo artista copiou, a arquitetura que todo construtor desejou, invejou, odiou, e como peregrinos de uma religião absurda (uma religião que nem parece realmente poder ser chamada de religião, uma religião que parece jamais ter existido), todos caminhavam pisando as pedras no mais pleno silêncio ou com os mais tímidos sussurros, dizendo palavras das mais diversas línguas. O perfume das oliveiras, ácido, mas também meio doce no fim, toma o ar e se mistura ao cheiro seco da areia quente. Amo o calor mais do que qualquer pedra, mais do que qualquer ruína. Pelo excesso de luz, José consegue ver bem melhor do que em Portugal, abrindo bem os seus olhos miúdos pelos óculos de muito aumento. Vez ou outra ele parava para descansar, contemplar o que podia contemplar e me contar uma história, e eu lhe dava água e pistaches (os melhores que já comemos, Marina). Ele disse uma coisa bonita que quero guardar com você: é que todo mundo ergue suas colunas já ansiando que elas virem ruínas, ansiando que no futuro as pessoas se lembrem de nós (...)” p.70/71

***

Ainda
Laura Cohen Rabelo
Edições de Minas
Romance

2012

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Orides Fontela - Poesia completa



Por Adriane Garcia

Terminei de ler o livro Orides, Poesia completa (contendo os seis livros), publicado pela editora Hedra. 

Há tempos eu me cobrava avançar um pouco na poesia de Orides Fontela. Confesso que, apesar de reconhecer como inegável o rigor da poeta, seus versos absolutamente bem medidos, sua poesia marcada pela exatidão, gostei mesmo foi do livro Rosácea, onde acho que ela se solta um pouco mais nas temáticas. Explico:

É que a poesia de Orides traz indagações filosóficas sobre o ser, a busca de uma essência e tenta destrinchar a forma das coisas, ao mesmo tempo, dando notícia dessa impossibilidade, da insuficiência da palavra para executar tal projeto. Algo bonito e profundo, o desfazimento das formas. O problema, para a minha leitura, foi o quanto isso se repetia por livros e livros. Algumas simbologias, como pássaro, por exemplo, tão recorrentes que, quando voltavam , eu pensava: "lá vem o pássaro de novo". 

Ainda assim, há poemas belíssimos, reflexões do fundo do silêncio. Vale ler e conhecer. 

NOTURNO

Os que nascem de noite
e, entre ossos, vigiam
                        o fogo
os que olham os astros
e, oprimidos, respiram
                    em cavernas

os que vão viver apesar
da escuridão e nos olhos
a luz clandestina
                      acendem

os que não sonham, os que nascem
                                          de noite
não vieram brincar: seu peito
guarda uma só palavra. 


***

Orides Fontela - Poesia completa
Organização Luis Dolhnikoff
Hedra
2015

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Nihonjin – Sagas para nos tornarmos visíveis


Por Adriane Garcia

Eu havia acabado de ler uma citação do escritor turco Orhan Pamuk: “o juízo moral é um inevitável terreno pantanoso no romance. Tenhamos em mente que a arte do romance produz seus melhores resultados não quando julga as pessoas, mas quando as compreende”. Concomitante, eu lia Nihonjin e pensava que, quando fosse escrever sobre o livro de Nakasato, usaria essa citação, porque era exatamente o que eu sentia sobre o modo como ele realizara este romance.

Muitas perguntas se interpuseram durante minha leitura. Eu me perguntava, principalmente, se eu havia lido em literatura outra história cujos personagens fossem esses, trazidos pela imigração japonesa ao Brasil. E eu me respondia não, respondia não para várias perguntas que me fazia, de meu desconhecimento sobre essas pessoas, sobre esse processo, não o histórico, que acabamos sabendo em linhas gerais, muitas vezes, mas o processo íntimo, que somente a literatura oferece.

O que Nakasato nos dá nesta sua obra é uma saga. A saga de uma família japonesa, marido, esposa e agregado que vem trabalhar na lavoura do café, na segunda década do século XX. Por meio desta família e sua descendência, o leitor apreende e aprende, torna-se aquele que se aproxima do outro e: compreende. Desde o avô, o ojiichan, súdito do imperador, nacionalista inflexível, ao filho Haruo, nascido em solo brasileiro e cujos valores apontavam na direção da assimilação e do convívio possível de dois mundos; da esposa que, com naturalidade, somente se sentava à mesa para comer, após a refeição servida do marido, à que tudo abandona, em busca da sua realização pessoal, o que o leitor vislumbra é a formação de cada um e lê, empático, sobre personagens que figuram em antagonismo.

A narração é fluida, a estrutura do romance se dá entre capítulos que quase funcionam como contos. Presente e passado, na voz eficiente de um narrador que deixa claro, desde o início, que está trabalhando com a memória cheia de lacunas, que está preenchendo essas lacunas com as entrevistas que faz com seu avô Hideo e seu tio Hanashiro, com o convívio, o ouvir dizer de suas tias e seu pai, com o despertar das fotos amareladas que dormiam numa caixa de papelão. É de tentar imaginar como veio aquela primeira esposa do avô, Kimie, doce e trágica personagem que chega a ser poética, aguardando a neve no Brasil, que Oscar Nakasato começa sua reconstituição.

O livro é um convite para descobrir este outro mundo que veio habitar o Brasil, que construiu colônias, que ergueu o bairro da Liberdade, que se recusava a aceitar a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial, que precisou aprender a viver com o gaijin, que, pensando se proteger, lutou contra a miscigenação dos seus, mas que não conseguiu controlar o chamado invencível do amor (o amor, sabemos, desconhece etnias).

Ao contar a história da família de Hideo no Brasil, Nakasato nos apresenta detalhes da vida desses imigrantes, leva-nos para dentro de suas casas, de seus conflitos, de suas dificuldades, de sua luta, de sua invisibilidade. Nihonjin é um livro que ensina e emociona e que em sua linguagem tão comunicativa se constitui um romance com predicados de excelência e sem nenhum pedantismo.
É de ler, reler e até dar de presente.

Ojiichan, comparando Kimie com a vovó, disse que eram muito diferentes, que ela, Kimie, era medrosa, fraca, que não servia para o trabalho duro da lavoura. E falou, rindo um riso que não ria havia muito tempo, um riso que trazia do passado distante, que ela ficou esperando pela neve no Brasil. Eu me surpreendia enquanto o riso ia se transformando em um sorriso melancólico.
Agora via nas marcas de expressão de seu rosto e nos olhos cansados uma mágoa que trazia daquele passado. Eu disse:
–  Gostaria de tê-la conhecido.
– Para quê? Não fazia nada direito, mal falava.
        Mas gostei de Kimie, interessei-me por ela. Pensei nela como personagem, alguém que nasceu da espera pela neve numa fazenda, no interior de São Paulo.(p. 10 – 11)

*** 

Nihonjin
Oscar Nakasato
Benvirá
2011


terça-feira, 29 de agosto de 2017

Turismo para cegos – de Tércia Montenegro



Por Adriane Garcia


Turismo para cegos, de Tércia Montenegro (Cia das Letras, 2015), conta a história de Laila e Pierre. Laila é a pintora que está ficando cega, em um processo irreversível. Pierre, um funcionário público que era seu aluno nas aulas de pintura.

Narrado pela atendente de um petshop, que conheceu os dois quando escolhiam um cão-guia, o romance se faz de uma forma instigante e envolvente. Tércia Montenegro, ao desenvolver a trama desse relacionamento, traz ao leitor uma aproximação com o tema da cegueira, da deficiência visual, das deficiências como um todo e uma reflexão acessória, porém não menos importante, sobre a questão do léxico politicamente correto e a linguagem literária. Turismo para cegos não está preocupado em se afinar com o jargão de “portadores de necessidades especiais”, menos ainda em tratar o assunto com qualquer “coitadismo”; é literatura e, por isso, acompanha seus personagens naquilo que os fazem verdadeiros, para o bem e para o mal.

Não obstante a inegável terribilidade de perder a visão, Turismo para cegos nos fará perguntar se a Laila que nos é apresentada é a Laila de antes da cegueira ou se a cegueira é que lhe causou uma grande modificação. Laila é uma cega voluntariosa, que usa Pierre como se ele fosse o seu cachorro, tanto que escolhe esse nome, Pierre, para nominar também o cão. Pierre, por seu lado, gosta do exercício de estar com Laila (que não pode mais ver o quanto ele é feio), faz do ato de ajudá-la uma espécie de missão e permite seus caprichos, como o de viajar gastando todo o seu dinheiro. Porém, tudo isso a narradora conta a partir de relatos de Pierre e do preenchimento das lacunas, obviamente, pela sua imaginação. Ou seja, as informações não são dadas pela própria Laila, o leitor não conhece essa primeira pessoa, em primeira pessoa, o que torna a narrativa ainda mais curiosa, confundindo de vez o nosso julgamento.

Turismo para cegos é um livro que prende nossa atenção do início ao fim, de leitura fluida e profunda, com algumas reviravoltas muito interessantes. Ao viajarmos para dentro da escuridão de Laila, vamos também conhecer a escuridão da narradora e de Pierre. E, claro, pensaremos nas possibilidades da nossa própria escuridão. 

A literatura sempre escreve certo pelas linhas tortas. Ao tratar seus personagens sem compaixão, Tércia nos oferece o exercício da compaixão, porque enxergar não necessariamente é ver. 

(...) Em várias conversas, ela já demonstrara impaciência com o que chamava de “demagogia do fim dos tempos”. Enquanto o planeta se destruía na maior velocidade possível, os mocinhos de propaganda apareciam com cartazes de uma atitude ecológica. Gabavam-se de usar bicicleta em vez de carro, separavam o lixo por categorias e perdiam-se em discussões sobre a melhor forma de descartar peças íntimas e óleo de cozinha. E toda a retórica da diversidade criara um léxico falsamente neutro para se referir a negros, gays ou deficientes, gerando polêmicas e projetos a se alastrar pelo mundo. Ninguém mais tinha direito ao silêncio ou à palavra censurada – embora o pensamento continuasse a todo vapor, incontrolável como sempre foi.” (p. 70)

Os recém-nascidos sempre me inspiraram pavor, como se fossem uma fissura do universo. O todo harmônico de repente extravasa, materializando-se de forma inexplicável. É diferente do que sinto em relação aos mortos, que afinal não se acabam completamente: persistem nos ossos, em células dispersas. Mas um bebê, inédito de feições, com sua miúda presença invasiva, traz um desequilíbrio e rompe espaços até então ausentes. As exigências surgem desde o primeiro momento, com a criatura que esperneia, debatendo-se numa gaiola invisível. Eu me lembrava do medo nas ocasiões em que visitei maternidades e berçários, para alguma prima ou tia me mostrar o novo membro da família. Depois, na época em que uma amiga de adolescência fizera “uma besteira”, conforme falou, eu a vi parecendo uma espancada a se recuperar no leito do hospital. Uma bisnaga feita de panos, com uma cabecinha humana, descansava a seu lado – e mal pude encará-la. Perdi o fôlego só de pensar que um dia isso fosse acontecer comigo.” (p. 206)


*** 
Turismo para cegos
Tércia Montenegro
Romance
Cia das Letras
2015

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A literatura imprescindível de Philip Roth – Leitura de Casei com um comunista



O romance Casei com um comunista, de Philip Roth (Cia das Letras, 2000), tradução de Rubens Figueiredo, conta a história de Ira Ringold, narrada pelo conhecido alter-ego de Roth, Nathan Zuckerman. Nathan conhecera Ira na adolescência, quando Ira já era um militante comunista linha dura. Décadas depois, ao se encontrar com o professor Murray, irmão de Ira, Nathan toma conhecimento do fim da história de seu ídolo nos anos de juventude. É essa história que Philip Roth nos trará em 422 páginas.

Para além da trama que se passa nos anos de macarthismo, da perseguição política aos comunistas, a “caça às bruxas” dos anos 50, nos Estados Unidos da América, Philip Roth traz ao leitor, neste livro, um verdadeiro tratado sobre política e literatura, sobre liberdade e disciplina, liberdade e desapego e sobre ideologia e morte. Sobretudo, do que Roth falará e deixará claro, na composição de seus próprios personagens, será sobre a complexidade individual, o antagonismo humano.

Ira (um astro de rádio em ascenção) é o comunista ferrenho que se casará com uma atriz de sucesso, a rica e famosa Eve Frame, escravizada emocionalmente pela filha Sylphid. Entre a ideologia comunista e a prática burguesa, a vida de Ira Ringold e daqueles que orbitam em torno de sua história, habilmente mostrada por Roth, é o retrato com o qual o autor demonstra a potência dos antagonismos que há em cada um de nós, o fosso que existe entre aquilo que acreditamos e muitas vezes pregamos e a forma com que agimos. À exceção do personagem O'Day, que tem absoluta consciência de que para não se perder de si é preciso estar num quarto “cela”, num quarto sem nenhum bem-estar além de uma dura cama para dormir e algo para ler e comer, todos os personagens de Casei com um comunista são feitos de complexidade e incoerência (esta a coerência humana). Mesmo nos personagens que mantêm uma conduta mais condizente com a sua crença, como o caso do professor Murray, por fim, o que vemos é a grave presença da sombra de um arrependimento. Roth chega à tensão de construir sua personagem Eve Frame, uma mulher invejada, infeliz na vida e no amor, uma judia antissemita.

Da página 288 em diante, o que o leitor tem é a riqueza da discussão sobre o fazer literário, a reflexão exposta do fazer artístico se imbricando na própria trama, o professor Leo Glucksman trazendo o paradoxismo no próprio discurso, pois que, como todos, acha sua verdade superior às outras. E, por fim, a magnitude de uma obra que pensa o ser humano e a humanidade, sem condescendência com qualquer grupo, e que se pergunta o que, afinal, fazemos com os nossos erros; qual o sentido de nossas próprias histórias, individuais e coletivas, diante da morte.

Um livro imprescindível, cujo compromisso é apenas com a literatura.

“ – Arte como arma? – disse ele, a palavra “arma” carregada de desprezo e ela mesma uma arma. – Arte como a tomada da posição correta com relação a tudo? Arte como o advogado das coisas boas? Quem foi que ensinou tudo isso a você? Quem ensinou que arte são slogans? Quem ensinou que a arte está a serviço “do povo”? A arte está a serviço da arte, senão não existe arte nenhuma digna da atenção de ninguém. Qual é a razão para escrever literatura séria, senhor Zuckerman? Derrotar os inimigos do controle de preços? A razão para escrever literatura séria é escrever literatura séria. Você quer se rebelar contra a sociedade? Vou lhe dizer como fazer isso: escreva bem. Quer abraçar uma causa perdida? Então não lute em favor da classe trabalhadora. Eles vão se dar muito bem na vida. Vão se empanturrar de carros Plymouth até seu coração se fartar. O trabalhador vai dominar todos nós – da estupidez deles, vai jorrar a lama que é o destino cultural deste país vulgar. Em breve teremos neste país algo muito pior do que o governo dos camponeses e operários. Você quer uma causa perdida para defender? Então lute pela palavra. Não a palavra bombástica, a palavra inspiradora, não a palavra pró-isso e anti-aquilo, não a palavra que alardeia para as pessoas respeitáveis que você é um sujeito maravilhoso, admirável, compassivo, sempre do lado dos oprimidos e humilhados. Nada disso, lute sim pela palavra que afirma aos poucos alfabetizados condenados a viver na América que você está do lado da palavra! Esta sua peça é um lixo. É medonha. É revoltante. É lixo grosseiro, primitivo, tosco e propagandista. Ela tolda o mundo com palavras. E esbraveja aos céus e terras as virtudes do autor. Nada produz um efeito mais sinistro na arte do que o desejo do artista de provar que ele é bom. A terrível tentação do idealismo! Você precisa alcançar o domínio sobre o seu idealismo, sobre a sua virtude, bem como sobre o seu vício, o domínio estético sobre tudo aquilo que o impele a escrever, em primeiro lugar – a sua indignação, a sua política, a sua dor, o seu amor! Comece a pregar e tomar posições, comece a ver a sua perspectiva como superior às outras, e você é inútil como artista, inútil e ridículo. Por que escreve essas proclamações? É porque olha o mundo em volta e fica “chocado”? É porque olha o mundo em volta e fica “comovido”? As pessoas sucumbem muito facilmente e fraudam os seus sentimentos. Elas querem ter sentimentos prontos, e então “chocar-se” e “comover-se” são os mais fáceis. Os mais burros. Exceto em casos raros, senhor Zuckerman, o choque é sempre falsidade. Proclamações. Na arte não há lugar para proclamações! Tire essa sua adorável merda do meu escritório, por favor.”
(Diálogo entre o professor de arte Leo Glucksman e seu aluno Nathan Zuckerman, p. 288 e 289)

***

Casei com um comunista
Philip Roth
Tradução Rubens Figueiredo
Cia das Letras

2000