sábado, 25 de março de 2017

Um dia toparei comigo - o fio de Ariadne de Paula Fábrio


Achará, à primeira vista, a leitora, o leitor, que lerá um livro sobre a viagem de duas mulheres, companheiras, a Madri.  Que esta viagem poderá ser também outras que o livro conta, ao Rio de Janeiro, Teresópolis, ou à França, Paris. Poderá achar, ainda, que será encontrar Buenos Aires, Roma e tantos outros lugares aos quais a vida de Isabel, a narradora, e Virgínia nos levam. Será somente à primeira vista.

Em Um dia toparei comigo, de Paula Fábrio, a viagem que realmente faremos junto de sua protagonista será ao labirinto, forma e tema se encontrando, pois que o labirinto é tanto a falta de linearidade em que a narrativa se desenvolve quanto o lugar sem mapa, sem paradeiro, sem avisos prévios em que a vida nos lança, logo que nascemos.

Nas palavras de Isabel, Virgínia é a pessoa com quem compartilha a fobia de viver. A narradora, tendo passado recentemente pela morte do pai, acometido pelo câncer, viaja com a companheira – que vive apenas um mês por ano, o mês de férias – e encontra, na Espanha, outros amigos. O que parecia ser uma pausa do assunto mal acabado, a morte, deixado no país de origem, retorna, pois o tio de Luís, seu Ramires, também está morrendo. Desencadeada pela beleza e o alumbramento das novas paisagens, a memória aciona as lembranças dos fatos. Passado e presente se cruzam, todo o tempo. Perceber esses personagens, justamente no vai e vem da lembrança de Isabel, é ir compondo o livro juntamente com a autora. Ela vai dando à leitora, ao leitor, a chance desse exercício de imaginação: aos poucos, tudo fará sentido, porque nada tem.

É da vida sem sentido, é de dar sentido à vida, é de tentar encontrar as saídas possíveis para nascer e morrer, entre um ato e outro, que o livro de Paula Fábrio nos fala. Fala de luta, a diária – que não parece um grande feito, mas é – e resignação. Os personagens de Um dia toparei comigo são tão frágeis quanto eu e você, guardam fracassos mesmo já tendo estado “no maior do auge”. O tom é de uma melancolia profunda e bela, que a obra de arte alcança. Sem piedade alguma, a autora revela nosso sentimento tão constante de estarmos perdidos, estrangeiros em qualquer terra e, principalmente, estrangeiros dentro de nós mesmos. O Minotauro deste labirinto é o espelho.

No fim da leitura, eu que, por demais, já gostava do título, passei a gostar mais ainda. “Um dia toparei comigo” é uma esperança. E no livro de Paula Fábrio, com seu fio de Ariadne nos conduzindo, é uma realização.

“Não havia o que fazer nas próximas horas, dias, e também e também não importavam os ponteiros do relógio. Eles marcam a duração da alegria e só. Até mesmo o túnel do tempo não seria vantagem, caso não saibamos tim-tim por tim-tim o que fazer da vida. Presumo, toda viagem é um pouco à deriva e, enquanto não nos conformamos em fruí-la sem nos debater, não poderemos nem ao menos contar uma boa história aos próximos da fila.
Quando não há o que fazer, caminha-se.”

***
Romance/ Um dia toparei comigo/Paula Fábrio/Editora Foz, 2015


quinta-feira, 16 de março de 2017

As mãos feridas sob luvas de aço – Jogo de facas, de Thais Guimarães



Por Adriane Garcia

Você abre o livro e encontra uma mulher com uma faca afiada em uma das mãos. Com a outra ela ajeita o cabelo. Em seguida, pega a pedra de amolar. Essa a imagem que dá as boas vindas no livro Jogo de Facas (ed. Quixote, 2016), de Thais Guimarães. Respire, não há flores na recepção, Thais não quer enganar. A sala em que você vai entrar é branca, das paredes ao teto, há um quê de assepsia, é dessa assepsia também que Thais quer nos falar. Em contraste, na maca de aço, a vida será dissecada. É a própria poeta que se dá em holocausto. Jogo de facas procura o sangue que corre nas veias, procura algo em que se sujar, quer achar as vísceras e já encontrou. Nada salva e jamais faz sentido.

Num projeto de inteligência e muita sensibilidade, esse livro, orgânico, faz a forma encontrar o tema. Os versos são – o próprio título do livro já revela – da família cabralina; sem excessos, o corte se faz com exatidão, ritmo e essência.

Dividido em quatro partes, planos de corte, linhas de incisão, provas de corte e pontos de sutura, os poemas se desenvolvem sem piedade alguma com a vida (o caçador aqui se torna a caça), por consequência, com o leitor. Não importando se a metáfora nos leva ao açougue ou ao hospital, se as mãos são de assassinos ou legistas, as facas são o instrumento necessário para a sobrevivência, a escolha é matar ou morrer. Ter uma faca, Thais deixa claro, é estar de posse da maturidade, é ter crescido, é calcular. A poeta disseca com a firmeza de quem não quer mais se distrair. A distração pode ser fatal. Crescer é ter perdido. E dói.

Dessa dor, a luta diária, a batalha, Thais retira as metáforas da guerra, dos instrumentos perfurantes, tesoura, navalha, gume. Por incrível que pareça, há delicadeza nos versos, ao mesmo tempo que uma violência de punhos cerrados, de golpes. A salvação, o amor, aparece, num primeiro momento, como desejo, sonho e sexo; em seguida, como mais uma violência oferecida pela condição humana, mais uma arma para nos vencer. As facas cortam, o amor, navalha, rasga na fragilidade da carne, deixando as entranhas expostas. Aos poucos, os versos revelam nosso corpo, nossa casa frágil; se quiser ir mais fundo, será preciso calçar luvas de aço.

Jogo de facas, porque jogo, revela-se, prossegue, desmentindo a própria ideia inicial, a de cálculo, a de incisão suficiente, a de mão que não treme; a vida não é ciência e, apesar do cálculo, não há controle. A prova disso é que Jogo de facas é também um livro que mostra uma tristeza profunda, dessas que somente poetas podem amplificar.

Rasgados, da cabeça aos pés, resta-nos o reconhecimento de tal ferida, a resignação e a constatação diante do espelho. Mais esta faca: o tempo.
grau de visão

envelhecemos
e não há forma amena
para contar tempo
o que passou

a imagem devolvida
pelo espelho
diz tudo
sem palavras

os olhos
já não veem
(sem óculos)
o que não precisa ser visto

Em um trabalho de muitas imagens, a do corpo aberto pela faca é o retrato resumo da nossa fatalidade, “um pássaro se debate/contra si mesmo/ na janela”. Antes do sossego que só a morte pode oferecer, o pesadelo da memória: “vento que incomoda”.

Em Jogo de facas a poesia demonstra beleza, crueldade e controle. A poeta se vinga do acaso. A vida não se completa, a plenitude de sua realização não se dá, a vida é o sono porque não se faz inteira ou consciente. O desespero é silencioso e cansado, como devem ser as cirurgias de risco. Não por acaso, dois grandes gritos no livro são os poemas Sylvia Plath, “na pele escura da noite/riscar a alegria/ – fósforo – / na fátua palavra/ meteoro”, e Alfonsina Storni, “na noite constante/ o álcool perde o lugar// em meus afogamentos/ hei de beber o mar” , duas escritoras que cometeram suicídio.

Por fim, largar a faca e cozer. Resta a sutura por passarmos a vida esperando o que não é factível. Thais depõe a faca sobre a mesa, senta-se e municia as agulhas:
o corpo que me prepara/ que menos me fere/ é aquele onde me deito:/ firme cama de ferro/fino leito de pregos”.

Um livro valioso. Dos que se ficam a sós com o leitor.





sábado, 25 de fevereiro de 2017

Clarissa Macedo e a visão dos abismos



Por Adriane Garcia

        Bastou-me pouco tempo da leitura, menos de um terço do livro, para sentir a força da poesia de Clarissa Macedo em “na pata do cavalo há sete abismos”. O título, por si só, com este misto de sortilégio e enigma, lembrava o aviso de bruxas que eu poderia ter ouvido na infância.
         Não é uma poesia difícil, ininteligível ou hermética, mas também não é uma poesia fácil, se o leitor é do tipo que quer sorver verdadeiramente o encantamento das palavras. Leia os poemas de “na pata do cavalo há sete abismos” uma, duas, três vezes. Verá que algo se abre, verá o que é ficar na beira de seus precipícios.
        Pois é isso, Clarissa está a nos falar da profundidade, de tempo, de velhice, de morte, de mundos que não temos mais; de inadequação, de incompletude, de dúvidas, fracassos, de desterramentos. É poesia para quem não teme tonturas. Sete, seu número cabalístico, não lhe salvará, nada lhe salvará; Clarissa está para dizer que somos seres procurando sentido, mas você se sentirá acompanhado. Suas palavras são de penetração e é necessário um leitor disposto às lanças. Sim, algumas vezes a autora o fará sob o lirismo, mas ainda assim, esse lirismo tem o movimento das crinas dos cavalos, enquanto é quase tempestade o que venta.
        A maturidade reconhece a dor e sabe o que fazer com ela. Clarissa é daquelas poetas que corroboram o meu pensamento de que todo poeta é antigo. Não luta contra, luta com. Sua poesia ditada de mistérios e de experiências que parecem advir de uma ancestralidade, comunga segredos tão necessários, aquelas leituras das reflexões mais silenciosas, feitas de habitar, como neste excerto, de Arrebatamento:

“O mundo é uma hora
mal desenhada e em tudo
esconde-se o infinito.”

Ou neste, de Jornada:

“surge a vida
mil vezes alucinada

parindo números
de mortos
desde ontem,
desde a era passada.”

        Sua musicalidade sendo belíssima, recorda esta nossa tradição mais bem realizada com Cecília Meireles. Seus versos limpos trazem o domínio diante do que fala e da forma com que escolhe falar. Sua poesia não nos põe obstáculos, mas nos pede desobstruídos, nos pede prontos para uma visão. Os elementos da natureza aparecem de forma insistente, principalmente a terra, como símbolo de lugar onde se estabelece a existência, onde se pisa, para onde se é sugado, como sangue, como matéria. Do pó ao pó, nas palavras da poeta: “cada passo é uma trapaça”. É interessante notar que a força invocada desde o título até as muitas reincidências da palavra terra, de seu elemental, é a força telúrica. Assim, pata do cavalo invoca solo, solo invoca abismo, abismo invoca espírito. Mas ela também tem a força para receber as alegrias, a poesia é também o júbilo da imaginação e do prazer:

“A chuva interfere nas ilhas
como quem deita de luz acesa.”

“Pois os magos, como os mais curiosos pesquisadores da natureza, fazem uso dessas coisas que são preparadas por ela, aplicando coisas ativas às passivas, produzindo, às vezes, efeitos antes do tempo ordenado pela natureza, que as pessoas comuns pensam se tratar de milagres aquilo que, de fato, são obras naturais, em que a prevenção do tempo apenas fica no meio, como se alguém pudesse brotar rosas em março; e amadurecer as uvas, ou colher feijões, ou desenvolver a salsa em uma planta perfeita em questão de poucas horas; mais ainda, provocar coisas maiores, como nuvens, chuvas, trovões e animais de diferentes tipos, e muitas transmutações de coisas (…)”.

Henrique Cornélio Agrippa de Netteshein, em Da Magia Natural

“Embora o poema não seja feitiço nem conjuro, à maneira de ensalmos e sortilégios o poeta desperta as forças secretas do idioma.”

Octavio Paz, em O arco e a Lira

        Haveria tantos versos de Clarissa, neste livro, para ilustrar o que o mago e o poeta disseram – acho que Clarissa faz nascer rosas em março, ou em todo mês, faz ver também seus espinhos mas ficarei com a força inequívoca destes seus versos:

“A alma relincha
na estrebaria.”

***

Clarissa Macedo, natural de Salvador (BA), doutoranda em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora, pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo mundo afora (além do próprio Brasil, Colômbia, Peru, Cuba). Está presente em diversas coletâneas, revistas e sites. É autora de O trem vermelho que partiu das cinzas e de Na pata do cavalo há sete abismos (7Letras Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia), ambos de 2014, este último, recentemente reeditado pela editora Penalux.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A força gravitacional de líria porto – cadela prateada



Por Adriane Garcia


Estive às voltas com o livro “cadela prateada”, de líria porto (ela gosta assim, minúscula) por cerca de uma semana. Um livro de poesia que, sem dúvida, se leria de uma só vez, em algumas horas, pois de leitura extremamente fluida. Mas isso faria um leitor que não tivesse, como eu, uma relação quase gastronômica com palavras. líria porto oferece um banquete precioso, onde saber e sabor se misturam, e feliz é aquele que, privilegiado, pode sorver nuances, sustos de mudanças, inversões, duplos e triplos sentidos. Por isso li três vezes cada poema.

A coletânea é temática e aborda de criativas maneiras este nosso satélite, habitante do céu e do imaginário: a Lua. A cadela prateada uiva e faz uivar. É mulher, tem luz própria, é corporificada, amamenta, é força, é dionisíaca, erótica e vive de um amor complicado: o Sol.

De forma absolutamente ritmada e, portanto, musical, passear pelos poemas de “cadela prateada” é ouvir música. Brinco (de forma séria) que quando algum poeta tem problema de ritmo em seus poemas eu lhe recomendo, de imediato, ler Cecília Meireles. Faço-o agora também com líria porto.

A linguagem é atualizadíssima, bem humorada, sem deixar de falar da tragicidade da vida; as metáforas, riquíssimas. líria porto é uma poeta que consegue fazer uma poesia sensível, comunicante, filosófica e, ao mesmo tempo, falar de sentimentos ou mesmo de política. Em “cadela prateada” nada é panfletário, nada é ingênuo, nada é forçado, nada é gratuitamente confessional.

Da cosmogonia própria, elaborada em belíssima narrativa à solidão diária e noturna, os temas vão-se dando, página a página, de forma surpreendente, leve, mas com força de atração natural.

Fim de livro, penúltimo poema especificamente, eu, que ria e me deliciava, chorei. Ali estavam também dois temas que a poeta desenvolve com maestria: a morte e o tempo. Eram minhas marés internas sendo movimentadas. Um livro que coloca a lua na palma da mão.


pálpebras

de manhã abro a janela
e deixo o sol penetrar
no corpo da casa

à noite fecho-a de novo
(estrelas ficam lá fora)
eu durmo dentro
do ovo

na lua cheia
não tenho regra


biografia

na guerra foi concebida
ficou-lhe esta ferida
rasgo no espírito

quando chegou outubro
envolta num manto rubro
quis ser feliz

à meia-noite e meia
na hora da lua cheia
rompeu o escuro

assim nasceu uma bruxa
alma cor de puxa-puxa
nome de flor-de-lis


adiamentos

a lua esperava o sol
redonda um talismã
quando ela se despiu
ficou de manhã

o sol lambia a lua
o meio o lado as beiras
lamberia a face oculta
a nuvem veio

só amanhã


poder

ora tímida ora escandalosa
essa lua bipolar puxa e empurra o mar
com os olhos


à amiga rina bogliolo

estejas onde estiveres
ao contemplares a lua
(dela não arredo os olhos)
poderei ver-te

dir-me-ás
é pouco

dir-te-ei
nem tanto
aos loucos
basta uma gota
e o mar virá


minguante

lua
o rato roeu
tua cara de hóstia

caíram uns farelos
que o gato lambeu
com os olhos

cão pobre vadio
uivou no vazio
tristeza de morte

a vida é o quê
senão o aguardo
da hora

***

Cadela prateada
líria porto
Editora Penalux
2016







segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Não chore - De Luiz Bras



Por Adriane Garcia


Não chore, de Luiz Bras (heterônimo de Nelson de Oliveira) é uma novela que discute, de forma instigante, o aparelho prisional brasileiro. 

Enquanto percorremos um lugar do futuro (que reconhecemos inúmeras vezes ser já o lugar do agora, o lugar distópico do agora), com personagens que cruzam a história como realidades paralelas, aparentemente sem se tocarem, somos colocados em contato com a reflexão sobre esta instituição que consideramos natural e não questionamos: o sistema carcerário.

No livro, os personagens, também desenhados por Teo Adorno (outro heterônimo de Nelson), retratam negros e negras (estes habitantes mais que comuns na vida real das celas nacionais). 

Trabalhando na contramão do esperado (sempre), Luiz Bras devolve a estes "criminosos"  a sua ancestralidade e mais: a sua origem cósmica, grandiosa, misturando à contemporaneidade da linguagem e do cenário mitos antigos e fundadores da trajetória humana. Deuses, orixás, xamãs, espíritos e animais das florestas, guerreiros se misturam, assim como velhas e novas roupagens, velhos e novos rituais, armas antigas e armas somente possíveis na ficção científica. Um aparato que pergunta: "Você está com a gente? Está disposto a explodir presídios?" 

Com cenas de imensa solidão e violência - mas uma violência que nos diz "você já está se acostumando há tempos", Luiz Bras nos leva a reconhecer tendências interiorizadas e mesmo a flagrar o quanto os discursos institucionalizados já domesticaram e anestesiaram nossas mentes, o  quanto paralisamos o exercício de pensar sobre Estado e controle e sobre o que realmente o Estado controla, para quem, o quê  e o quanto é importante que nos convença por completo que trancafiar os "criminosos" é primordial. A vitória da vingança sobre a reabilitação. 

Mas não chore, nem tudo está perdido, parece que é impossível extinguir, por completo, a capacidade humana de sentir e de se comover com o outro, ainda que isso já seja apenas fragmento. Um defeito na máquina fria?

Um livro com um viés anarquista; uma discussão muito interessante e necessário.


"VAI FICAR ADMIRANDO ESSA torre o dia todo? Joga logo.
Raquel, vamos tomar um café, conversar no mundo real...
Que besteira. Já estamos conversando no mundo real. Quem disse que a web não faz parte do mundo real?
Você está filosofando. A web não tem cheiro, não conheço teu perfume, o aroma do teu xampu... Eu queria acariciar tua pele, mas a web não tem a sensação sutil do tato.
Ainda não, mas em dez anos isso será resolvido. Uma prótese neural mais eficiente, um antivírus quântico...
Não quero esperar dez anos pra sentir você.
Que drama, garota! Que diferença faz conhecer alguém no mundo real? Por que isso é tão importante? Você conhece dezenas de pessoas no teu colégio, nem por isso parece feliz & satisfeita.
Raquel, o que você sente por mim? De verdade? Você tem medo de quê? De chorar? De se apaixonar?
Ai, meus pentelhos. Joga logo, Soo-Yun."


Não chore
Luiz Bras
Editora Patuá
2016

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Folhas do Tempo - de Maria Céres Castro, Paulo Bernardo Vaz...



Folhas do tempo é um livro de ensaios sobre o surgimento do jornalismo em Belo Horizonte, seguindo por duas décadas.

O livro não só traz aspectos interessantes do Arraial do Curral Del Rei e da incipiente Belo Horizonte, como as características e curiosidades sobre as diversas publicações que surgiram na localidade entre 1895 a 1926. Dos reclames, notícias às crônicas, um retrato curioso sobre mais este lado de uma cidade nascendo, uma cidade republicana, onde a República também não se completou.

Vale a leitura.



Folhas do Tempo
Imprenas e cotidiano em Belo Horizonte
1895-1927
Maria Céres Castro, Paulo Bernardo Vaz
Cançado, Cunha, Loyola, Santos, Simões, Siqueira, Sosnowski
Editora UFMG
1997

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A perversa migração das baleias azuis – O olhar épico de Alberto Lins Caldas


Por Adriane Garcia

Já na orelha de seu livro, Alberto Lins Caldas nos escreve: “sem violência política não há poema, só poesia, só crônica, só relato da latrina do eu, esse pobre eu q todos sabem, todos reconhecem, todos gostam e entendem – essa coisinha q os poderes e o poder adora porq podem dominar, amedrontar, inverter, perverter, redirecionar e por “nas salas de aula, das salas de jantar e nos quartos”. o poema não é coisa de poeta mas de libertino.”

E eis que pelas cento e cinquenta e quatro páginas é essa fidelidade ao pressuposto acima que reconhecemos. O poema de Alberto Lins Caldas está fazendo algum caminho que não o usual, que não a estrada sinalizada e tão batida; seu poema despe-se do eu, de qualquer confessionalismo, para estender-se a uma história maior. É novamente a epopeia, milênios depois, que é retomada por Alberto Lins Caldas. E se Homero, ou as vozes que se fizeram de Homero, cantou os grandes feitos do homem e enalteceu as nobres virtudes ligadas à guerra, à vingança, à coragem e à ação, o autor de A perversa migração das baleias azuis vem dar-nos o final da história, agora, quando o resultado, escrito em seus versos, entrega-nos o nosso homem reconhecível, raquítico, reduzido, de cujos instintos só sobraram os piores: a humanidade que somos. Nossa guerra não passa de covardia, nossa vingança é substituída pelo medo e pela preguiça, nossa coragem nos faz valer menos do que valem os ratos e nossa ação – quando acontece – é na esperança de poder oprimir, jamais libertar.

Fosse uma pintura, os personagens de A perversa migração das baleias azuis seriam telas bizarras de Arcimboldo, o maneirista pervertido, em que todas as figuras se formariam por adição de comida, pois disso é feita a espiritualidade do homem em Alberto Lins Caldas, o predomínio da gula, o seu aspecto glutão que, na verdade, significa todo o consumismo desenfreado e a destruição dos ecossistemas. Neste sentido, não um Arcimboldo da integração com os elementais, mas ao contrário, um Arcimboldo da destruição em massa e, por que não?, lentamente.

O mais interessante é notar em Lins a sua proposital citação – seja explícita, seja implicitamente – de grandes obras, autores e personagens da literatura, incluindo-se a Bíblia e as fábulas de Esopo e La Fontaine. Durante toda a leitura somos colocados diante do grandioso, subvertido, para – ao mesmo tempo, e por antagonismo – sermos bombardeados com retratos contínuos de nossa pequenez e avareza. Isso, obviamente, aumenta o efeito de nossa percepção. É a tragédia grega, mais especificamente em Sófocles, dizendo-nos “não fugirás ao seu destino”, mas é a tragédia grega desvendada por Lins, cujo tom nietzschiano também é inequívoco: não há nada fora de ti.

● hoje so sei q é preciso pagar ●
● as contas q entopem a vida ●
● so fazemos isso agora ●

● sobre essas viagens ●
● não digo nada a ninguém ●
●nem como a coisa terminou ●

● o velho capitao inda dorme ●
● onde escondemos o corpo ●
● inda não sabe q ta morto ●

● agora é a dor nessa perna ●
● essa coceira no rabo as tosses ●
● sabendo q deus castiga ●

Neste sentido, impossível não pensar que A perversa migração das baleias azuis foge de toda metafísica, encontra-se com a fenomenologia, ou seja, Lins nos relembra que a verdade é provisória e informada pelos sentidos, de acordo com a experiência de cada pessoa; porém, não é uma verdade confortável entre pastores e ovelhas. Num ritmo impecável, de canção, em poemas narrativos, Lins discorre sobre o homem civilizado – no pior sentido – que já inventou verdades suficientes para não questionar mais nada. O homem de A perversa migração das baleias azuis é um ser anestesiado. E é do poeta o último esforço para fazer perguntas sem muitas esperanças de resposta, como neste poema, Jonas, composto de 5 partes, em que aqui transcrevo as duas primeiras:

● jonas ●
● ? como é a baleia por dentro ●
● a baleia viva ●

● tão vasto aquele abismo ●
● nela ali adentro ●
● jonas ●

● ? tem musica ●
● ? coisas vivas vivendo ali ●
● ? ha a respiração das ondas ●

● de todas essas ondas ●
● q podem ser o mar ●
● ? ha o mar jonas ●

● ou so a baleia ●
● a baleia sem o mar ●
● jonas ●

2

● jonas ●
● ? como são as noites ●
● as noites da baleia ●

● ? ou não são noites ●
● jonas ●
● aquilo dentro da baleia ●

●? Ou a baleia é deus ●
● torcido de mar e baleia ●
● travestido de dor ●

● porq a baleia jonas ●
● vc sabe e bem sabe ●
● é dobra de carne e dor ●

● se não sabia jonas ●
● saiba agora ●
● pra sempre ●

● porq deve haver ●
● depois da tormenta ●
● depois das viagens ●

● das viagens assim ●
● jonas ●
● como essa na baleia ●

● a hora do sono da razão ●
● porq a baleia jonas ●
● sem isso não sera ●

● jamais a baleia ●
● a baleia mesmo ●
● nem deus sera deus ●

● nem jonas sera jonas ●
● os dois na baleia ●
● como as ondas jonas ●

● as ondas do mar ●
● as ondas as ondas ●
● as ondas e a baleia jonas ●


Um livro de um mestre. Não menos. Questionador já na própria linguagem, A perversa migração das baleias azuis é sobre nosso corpo, nossa casa, nossa rua, nosso país, nosso mundo. É uma poesia-antena, pré-apocalíptica (mas o apocalipse já houve e não foi percebido), em que a religião também foi a arma da nossa derrocada. É o poema da falta de sentido, da desistência pela busca do sentido, de um tempo onde a tecnologia suplantou toda filosofia. Ao mesmo tempo, é, em si, uma crença na beleza, pois, de verdade, nenhum poeta que escrevesse esses versos, estaria livre de crer nela.

A perversa migração das baleias azuis
Alberto Lins Caldas
Editora Ibis Libris

2015